Atualmente, quando se fala em literatura fantasiosa, lembramos normalmente dos mesmos autores(as): Neil Gaiman, J.K Rowling, Tolkien etc. E esquecemos de autores estupendos, como Terry Pratchett.

Pai do universo Discworld, Pratchett era dono de uma narrativa deliciosa, engraçada, que balanceia críticas sociais com ironias de maneira magistral. Eu, pessoalmente, comparo o tipo de humor dele com o do autor de ficção-científica, Douglas Adams. De acordo com a sua biografia, ele “usa histórias ambientadas num mundo de fantasia para trazer à tona incoerências e idiossincrasias bem reais. No entanto, consegue fazer isso sem prejudicar as características mais marcantes das suas obras: o bom humor e o entretenimento inteligente.”

E, como não poderia ser diferente, a aventura de Tiffany Dolorida segue toda essa linha clássica Pratchttiana (sim, eu inventei isso).

SINOPSE:

A fazenda da família Dolorida está com sérios problemas: monstros no rio, cavaleiros sem cabeça na estrada e o filho caçula sendo roubado pela Rainha das Fadas. Para trazê-lo de volta, Tiffany Dolorida precisará de toda sua força e determinação (e uma resistente frigideira), além da ajuda bem-vinda de um clã turbulento de pequenos pictsies ladrões, brigões e azuis conhecidos como Pequenos Homens Livres.

Tiffany e os pictsies (autor desconhecido)

A história é simples, mas tão recheada com magia celta e mitologia, tudo misturado com humor e sarcasmo, que se torna uma leitura intrigante ou, podemos dizer também, inteligente. Tiffany é uma menina de 9 anos um pouco diferente das outras, apenas por ser o que chamamos de bruxa (ou bruaca, que é como os pequenos homens livres a chamam). Mas a pobre menina não sabe disso, descobre de supetão e acaba mergulhando em situações desafiadoras e se metendo no resgate do irmão mais novo que, apesar de ela não gostar muito, precisa salvar.

Os pequenos homens livres, pictisies da melhor espécie, são hilários. Possuem um profundo medo de palavras (pois são ladrões e podem ser processados), mas um coração enorme e uma dignidade heroica. Me lembrou muito histórias escocesas, nas quais eles são, obviamente, inspirados. Aliás, todos eles se parecem com William Wallace, do filme Coração Valente, mas com mais cicatrizes e mais azul. E menos tamanho.

Existem diversos outros(as) personagens, tão encantadores(as) e carismáticos(as) quanto, mas você vai ter que ler para conhecê-los(as).

Durante a leitura, esbarrei em coisas curiosas que me remeteram a outras obras, como Tiffany usar uma frigideira como arma (Oi, Rapunzel!); o mundo inventado da Rainha das Fadas, que me lembrou demais do universo da Outra Mãe, de Coraline (inclusive, Neil Gaiman e ele eram muito amigos e já lançaram obras juntos) e por aí vai. Não estou dizendo que ele copiou alguém, só estou apontando partes que se conectam com outros universos. E, como a própria história nos conta, não existe só um mundo. Existem diversos, e todos estão interligados.

A narrativa, em si, é deliciosa. Você se diverte a todo instante ou leva um tapa na cara sem perceber, também a todo instante. Vale a pena cada página, e acho que todo mundo deveria conhecer Terry Pratchett e aprender uma coisa ou duas sobre escrever bons livros.

A história possui continuação, chamada Um chapéu cheio de céu. Ainda não li esse, mas estou ansiosa para isso. Suponho que o autor possa ter pensado em tornar essa história em uma saga, mas, infelizmente, Terry Pratchett nos deixou em 2015, aos 66 anos. Felizmente para nós (de uma maneira meio mórbida), o seu legado é longo e próspero, tendo lançado por volta de 70 livros.

Por isso, parafraseando sua personagem, Miss Tick, algumas coisas começam antes das outras. Então, vão ler.