Homem-Aranha: História de Vida (Panini Comics) | Crítica

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Por Esdras Araújo

E chegou o dia de falar um pouco de um quadrinho do meu super-herói favorito, que é o Homem-Aranha e faço isso sobre uma série muito legal e recém chegada no Brasil, que é Homem-Aranha – História de Vida, da editora Panini, lançada em meados de março deste ano.

Na história, o escritor Chip Zdarsky e o desenhista Mark Bagley, ao longo de seis edições (no Brasil compiladas num único encadernado), contam sobre o personagem década a década, rememorando a cronologia do herói, junto de eventos históricos dos anos 60 aos anos 2010, com a premissa interessante de vermos Peter Parker envelhecendo na mesma velocidade da vida real.

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Ao longo do seu roteiro, Zdarsky vai relembrando vários fatos marcantes do personagem, despertando de imediato um sentimento de nostalgia para os fãs do herói aracnídeo que acompanham suas histórias, contudo, o escritor teve bastante liberdade para criar e modificar os acontecimentos e eventos históricos nos quadrinhos, fazendo com que à medida em que o tempo passasse e o mundo fosse mudando, estas mudanças também repercutissem no personagem, alterando alguns rumos de histórias já conhecidas, impactando inclusive em decisões e condução de vida de Peter Parker, garantindo também originalidade ao roteiro, o que considero um acerto, já que as histórias clássicas todos já conhecemos da maneira como foram concebidas e estão aí à disposição para quem busque conhecer as origens e desenvolvimento do personagem.

A arte de Marke Beagley, que passa longe de ser um dos meus desenhistas favoritos, não compromete e traz o dinamismo que a história requer.

Nos anos 60 podemos ver o relacionamento de Gwen e Peter, a forma como a guerra do Vietnã impacta e gera conflitos internos ao Homem-Aranha e outros heróis, além de todas as repercussões naqueles que circundam a vida de Parker. As histórias são modificadas de forma até bem radicais, mas podemos perceber que a essência do personagem está contida ali, num roteiro que também busca um pouco de realismo e peso na abordagem psicológica e amadurecimento de Peter. A forma como Zdarski vai mesclando várias referências aos eventos do universo Marvel nos quadrinhos, premia quem os acompanhou, mas não atrapalha ou torna inviável a leitura para quem não os conhece. Nos anos 70, a forma como o autor trabalhou a referência à Saga do Clone original, por exemplo, traz consequências surpreendentes, bem como a chegada de Mary Jane em sua vida e outros acontecimentos.

Nos anos 80, uma contextualização política em meio às Guerras Secretas, já que na vida real o mundo ainda vivia sob a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, evidenciando como o evento galático repercutiu neste conflito, além de resgatar a forma como Peter assume o uniforme negro, trazendo referência à marcante história do personagem com o caçador Kraven. Nos anos 90, Zdarski não foge da raia e aborda a controversa e confusa Saga do Clone, sendo fiel à premissa de envelhecimento de Peter, abordando ainda outras fases mais recentes já nos anos 2000 até chegar aos dias atuais, em que um Homem-Aranha já idoso se vê na obrigação de usar o manto mais uma vez.

Ao longo da leitura podemos ir lembrando porque milhares de pessoas, independente da faixa de idade, se identificam com Peter Parker. Medo, insegurança, amores, desilusões, decisões que proporcionam momentos de alegria, mas também tristezas e traumas, empatia, bom humor, muita responsabilidade e tantos outros elementos que compõem a vida de Peter Parker/Homem-Aranha, em sua árdua missão de conciliar a vida de um jovem comum, inteligente, tímido e inseguro, que precisa encarar os compromissos do dia-a-dia e desafios na escola/faculdade/emprego, o casamento e uma conturbada vida adulta com a de um super-herói autoconfiante e irreverente, dono de poderes capazes de salvar diariamente milhares de pessoas, evidenciando também como a passagem do tempo e todos os acontecimentos, decisões e algumas omissões trouxeram de consequência à vida de um velho Peter.

Esse turbilhão de sentimentos e situações sempre aproximou o herói da vida cotidiana de milhares de pessoas, servindo de metáfora para a vida real. Qualquer um poderia ser Peter Parker. Por isso é tão querido e cativa muita gente de 1962 até hoje e o que vemos em História de Vida consegue retratar um pouco de toda essa história. Vale muito a pena a leitura.