Edipo Pereira

14 fev, 2022

Hqs e Livros

Uma coisa é certa: você provavelmente não está preparado para ler os eventos expostos em Grama. O manhwa de Keum Suk Gendry-Kim tem feito enorme sucesso no Brasil e em outros países desde seu lançamento (por aqui, isso foi em 2020 através da sempre caprichosa editora Pipoca & Nanquim), sendo mais uma grande obra que podemos destacar quando falamos de produções sul-coreanas.

Aviso: tanto o texto da crítica quanto o quadrinho Grama podem conter muitos gatilhos sobre violência contra a mulher.

O quadrinho faz uma mistura de biografia com documentário sobre a vida de Ok-sun Lee, vendida pela própria família na infância e forçada à escravidão sexual pelo Exército Imperial Japonês. Ela é uma das várias mulheres que foram capturadas para servir aos soldados nas chamadas “casas de conforto”, espalhadas pela China e por territórios ocupados pelo Japão durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, em um dos episódios mais escabrosos do passado da humanidade.

A própria autora faz a vez de personagem no manhwa, onde ela visita Ok-sun para colher o material de sua história a chamando de "vovó", o que leva o leitor a imaginar que se trata de uma história do passado de uma família. No entanto, aos poucos percebemos que termos como esse e outros como "mamãe" são usados para se referir às mulheres sobreviventes desse período, e que até hoje lutam pelo direito de serem indenizadas pelo governo japonês, que, ao invés de fazer esforços nesse sentido, acaba fechando acordos unilaterais com o governo sul-coreano sem consultar as próprias vítimas. Desse modo, Keum Suk e Ok-sun não possuem parentesco algum.

Apesar de retratar algo feito pelo Japão durante as guerras, Keum Suk Gendry-Kim não coloca em sua obra um teor nacionalista, do tipo que pregue o ódio a outro país pelos seus erros (apesar de uma natural raiva poder surgir nos leitores ao longo da experiência). Tanto que é citado no trabalho o mesmo abuso ocorrido com mulheres japonesas e também de outros países como China, Vietnã, Filipinas e outros mais.

Mas voltando a Ok-sun Lee, trata-se também de uma mulher de trajetória ímpar, tendo atuado como ativista pela devida retratação do governo japonês, adotando ao mesmo tempo uma postura anti-guerra. Toda a sua perseverança é ainda mais admirável quando vemos ela confessar para a autora que, desde que nasceu, não se sentiu feliz em momento algum.

E não é pra menos: através de precisas pontuações históricas, onde Keum Suk encaixa seus personagens no contexto da linha do tempo da guerra (como, por exemplo, quando o governo dos EUA atirou bombas nucleares contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki no Japão), vamos acompanhando toda a miséria e humilhações pela qual a protagonista e tantas outras mulheres e crianças tiveram que passar, em relatos que acabam por afastar os criminosos envolvidos de qualquer noção que tenhamos de humanidade.

Apesar de tudo, a narrativa de Grama é bizarramente envolvente, mas não por um sadismo do leitor. Ao menos em mim, terminar o quadrinho foi uma espécie de missão cumprida, como um enfrentamento da responsabilidade cívica que qualquer pessoa precisa ter frente a tamanha sombra na história da humanidade. Um reflexo do mesmo sentimento que a autora revela ter sentido no posfácio da edição, ao descrever um episódio em que ela temeu pela própria vida numa complicação de trânsito. Essa coragem do leitor e da leitora acaba sendo premiada com uma história contada com muita delicadeza, apesar do cenário pesadíssimo.

A arte de Keum Suk pode causar alguma estranheza no início, principalmente para os leitores pouco acostumados aos trabalhos artísticos orientais. Mas depois de algumas páginas, é bem possível que você já esteja envolvido com toda a subjetividade da arte, somada à capacidade de expressar sentimentos dos mais complexos em suas personagens.

Sendo de difícil absorção, a leitura de Grama não dá a recompensa que queremos, mas é o suficiente para seguirmos em frente, com grande chance de passarmos pela renovação pregada pelo título deste belo quadrinho. É uma experiência que pode mudar a sua vida.

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