Fisheye, de Kami Girão | Crítica

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“[…] Porém, não havia nenhum bicho papão para temer. O monstro ali era eu. Era de mim mesma que eu sentia medo, da forma estranha como meu corpo reagia, da falta de controle sobre aquela escuridão” (p.16)

Ravena Sombra tem apenas 16 anos quando descobre que tem retinose pigmentar. Antes, ela havia se esforçado ao máximo para ser a pessoa mais perfeita existente, a queen bee de sua escola, a bambambam, a mulher mais linda e segura, com as amigas mais bonitas, em um grupo cheio de beleza e popularidade. Entretanto, após um  pequeno acidente, ela é obrigada a confrontar essa realidade: ela não só não é perfeita, como nunca foi. O seu maravilhoso castelo de cartas começa a ruir…

Kami: a artista de mil artes

Kamile Girão, sim, a nossa Kami aqui do Cosmonerd!, construiu uma história sensível em Fisheye, sobre uma garota que achava que tinha tudo, e ela até tinha, mas não do jeito que pensou. Ravena é uma adolescente mimada e que se esconde sob uma camada de coisas, criando para si uma personagem que não condiz com quem ela realmente é, e se ver de frente com a possibilidade de ficar cega faz com que ela tenha que “enxergar” as coisas de um novo ângulo.

Primeiro, o que é essa doença? O que é retinose pigmentar? Bem, é uma doença degenerativa, sem cura, que destrói aos poucos a sua visão. A pessoa que a possui pode ou não ficar completamente cega, pois há tratamentos que retardam a degeneração.

O enredo, ao contrário de muitos YA, não envolve um plot principal romântico. A história de Ravena Sombra é sobre amadurecimento, sobre crescer, se aceitar, lutar contra a maré de azar e achar o próprio caminho. É sobre nem sempre ser fácil, mas se manter em pé assim mesmo. A história conversa conosco em várias camadas, com seus diversos e bem construídos personagens, com a narrativa na primeira pessoa, sempre na cabeça da protagonista.

Esse último fato acarreta em cenários interessantes, com um envolvimento maior, pelo menos da minha parte, com a história. Eu comprei a briga de Ravena, sofri e sorri com ela. Abracei os seus amigos, os que ela acabou achando ou reencontrando no caminho. Fiz todas as descobertas ao mesmo tempo em que ela fez. É cativante, é emocionante, é escrito com tanta delicadeza e sentimento, que ocasionalmente esqueci que estava lendo um livro e não conversando com uma amiga.

Cada personagem tem a sua força dentro de Fisheye e seu papel na vida da protagonista.  Kami não deixa nenhum de fora! Sejam os pais ausentes e a família partida e relapsa. Sejam os amigos falsos, que Ravena pensou ter conquistado, mas na verdade era só conveniência pela popularidade. Todos tem o seu arco, sua construção, um espaço próprio.

Micael, por exemplo, é perfeito sem defeitos. O melhor amigo de Ravena nos pega em cheio com seu carinho, com a sua compreensão, com seu jeito extrovertido e protetor, como um irmão mais velho. Eu ainda estou no aguardo do spin-off dele, e dona Kamile sabe.

Temos o lindo, perfeito, Daniel. Mentira, ele não é perfeito, mas essa é a melhor parte. É alguém crível, alguém com quem você já deve ter esbarrado, sorrido junto, alguém que pode estar até mesmo ao seu lado hoje em dia, aquele amigo otimista que procura o lado bom nas coisas, sempre tem um ombro amigo e topa todos os seus rolês estranhos.

Victória é uma das personagens mais surpreendentes, pois somos apresentados a ela como uma figura horrível, uma irmã relapsa e maldosa, para nos depararmos com alguém que, afinal de contas, se importa e se arrepende do passado de irmã má. Assim como os pais de Ravena, que precisam aprender a se reconstruir e se encontrar.

Sabe aquele ditado de que coisa ruim nunca vem sozinha? É assim para Ravena. Além do medo de ficar cega, de repente vê tudo se estilhaçando e não sabe o que fazer. Mas, como eu disse, Fisheye é sobre amadurecimento. E, aos poucos, essa sementinha vai germinando e ela vai aprendendo aos pouquinhos sobre si, sobre o mundo, sobre as pessoas ao seu redor e vai evoluindo como ser humano. Algo que todos deveríamos sempre fazer, sem esperar que algo tão sério quanto a possibilidade de ficarmos cegos aconteça para abrirmos os olhos!

Fisheye, no fim das contas, é uma leitura deliciosa, sofrida, gostosa, triste, alegre… Cheia de altos e baixos, de subidas e descidas, de todas as curvas que uma vida pode fazer em um curto espaço de tempo. O defeito desse livro é que ele acaba. E não tem ainda o spin-off do Micael. Que fique registrado a minha indignação.

Também, alguns arcos ficaram em aberto, pois o foco da história não são eles, e sim Ravena. E o final dela não poderia ter sido diferente. E você vai ter que ler, se quiser saber.

P.S: Vocês podem comprar Fisheye com a própria autora, através do seu Instagram: @kamigir. E, se quiserem uma experiência completa, a história tem sua própria playlist e você pode ouvir abaixo:

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