Obra prima de Neil Gaiman, Deuses Americanos não pode faltar no panteão da sua estante

Há uma década e meia, Neil Gaiman lançava aquela que muitos julgam ser sua obra prima. Ler Deuses Americanos atualmente é uma ótima pedida para se inteirar a respeito de mais um universo (e que universo) fantástico disponível na praça, mas a indicação vai muito além disso. Também serve para comprovar a validade em relação às ideias e conceitos apresentados e muito bem estabelecidos pelo autor no início dos anos 2000.

A trama de Deuses Americanos acompanha Shadow Moon, um condenado que está prestes a sair da prisão. Sua saída, porém, é antecipada em alguns dias quando sua esposa morre num acidente de carro. Em meio ao luto, Shadow conhece o persuasivo e enigmático Wednesday, um homem que busca um segurança particular para seus negócios oferecendo assim um emprego ao protagonista, que logo percebe que a rede de negócios do seu novo chefe é um tanto incomum.

Não é um país fácil para os deuses

É incrível como Neil Gaiman consegue extrair a essência estadunidense e transportar seus entendimentos para o livro. Sua preocupação aqui é principalmente com o viés migratório do país, onde ao longo da história pessoas do mundo todo foram para lá levando de alguma forma seus deuses e crenças, que por sua vez foram esquecidos, ao mesmo tempo que outros nasciam. Nas páginas, isso é reforçado através dos contos do senhor Ibis, que por si só renderiam histórias próprias.

Sendo assim, o grande lance da história inicialmente é mostrar o embate entre deuses antigos contra os novos, que são nada menos do que as coisas que cultuamos atualmente. Então não se surpreenda ao saber sobre o deus do cartão de crédito, automobilismo, fast-food, internet etc. Os elementos narrativos usados para amarrar a história são muito bem justificados na trama principalmente através da figura de Laura, esposa de Shadow, que transita como se fosse um parasita pelo enredo. Não fica em momento algum a impressão de que Shadow poderia reagir de outra forma às revelações sobre o que não é humano ali, junto com todo o balaio de deuses e outras divindades sobre as quais a obra se dispõe a tratar.

A gama de personagens pode atrapalhar um pouco o leitor mais disléxico que, somado aos diversos momentos de devaneio de Shadow (como nos sonhos), acaba tornando Deuses Americanos uma experiência bastante complexa, seja pelo cunho lúdico das situações criadas por Neil Gaiman ou mesmo a introspecção que tudo isso traz. Logicamente, esse último lado nem se compara a outra obra tida como máxima do autor, que é Sandman.

Como se não bastasse, Deuses Americanos possui a característica de ser uma fonte riquíssima de referências. Mas nem tudo vem de mão beijada aqui, e nossa curiosidade é aguçada a cada novo personagem que aparece, junto com suas descrições e diálogos, trazendo a questão “que Deus será que é esse”? Alguns já trazem dicas só pelo nome, como é o caso de Low Key Liesmith, Easter e Ibis. Fica o desafio.

Edição e série na TV

Recentemente, a Editora Intrínseca lançou uma “Edição Preferida do Autor” para o livro, que conta com capítulos expandidos, artigos, uma entrevista com Gaiman e um inspirado texto de introdução. O mesmo tipo de trabalho foi feito com outras obras do autor como Lugar Nenhum e Os Filhos de Anansi (esse último sendo um cativante personagem de Deuses Americanos, inclusive). Trata-se de uma boa alternativa em relação à antiga edição da Editora Conrad. Também é tempo de celebrar a estreia da série na TV. Nos EUA, Deuses Americanos será transmitido pelo canal Starz, chegando ao resto do mundo pelo serviço de streaming da Amazon.