Esdras Araujo da Silva

3 nov, 2020

Hqs e Livros

Quadrinho foi concebido para celebrar os 150 anos da Fundação Evangélica Neuerkerode, que tem um legado de tolerância à diversidade

Chegou a vez de falar sobre um dos melhores quadrinhos que li em 2020: Aprendendo a Cair, do alemão Mikael Ross, publicado no Brasil pela editora Nemo. Conta a história do jovem Noel, fã do AC/DC e portador de necessidades especiais, que vê sua vida virada pelo avesso quando sua mãe (única pessoa com quem mora em Berlim) sofre um derrame cerebral, com Noel sendo encaminhado para ser cuidado numa pequena vila inclusiva em Neuerkerode, no interior da Alemanha, em que pessoas com e sem deficiências, dos mais variados lugares e origens, convivem juntas e compartilham do mesmo cotidiano, participando ativamente da vida social do local. Ross conta sobre a adaptação de Noel ao seu novo contexto e retrata um pouco do dia-a-dia da vila.

Ao longo de pequenos capítulos (a história tem apenas 125 páginas), vemos sua chegada, a interação com alguns personagens, a criação de vínculos de amizade, as descobertas, frustrações, angústias, sentimentos, lembranças e um pouco de seu processo de amadurecimento, dentro de sua realidade peculiar. "Aprendendo a Cair" mescla de forma bastante orgânica pitadas certeiras de drama, comédia e poesia, inclusive trazendo um breve, mas forte conteúdo político que marca profundamente a história de uma das personagens e a própria história da vila, criada em 1868. A arte é simples, contudo, consegue expressar bem todo o sentimento trazido pela história tão singela, que diverte e emociona, apresentando personagens cativantes. Vale muito a pena leitura.

Cabe destacar mais uma peculiaridade sobre a obra: o quadrinho foi concebido para celebrar os 150 anos da Fundação Evangélica Neuerkerode, em 2018, que tem um histórico e legado bastante bonitos de tolerância à diversidade de origem, gênero e religião, como a própria história retrata em alguns momentos, se tornando uma empresa de economia social que trabalha de forma bastante saudável a inclusão e participação, com Mikael Ross tendo sido convidado para retratar um pouco da história daquela comunidade de forma de forma artística e o resultado foi excelente. Uma merecida homenagem a um tão belo exemplo de solidariedade.

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