Kami Girão

12 jul, 2021

Hqs e Livros

Quero que, primeiramente, você pense em uma mulher idosa que faça parte da sua vida - pode ser avó, tia, vizinha, amiga da família. E que agora, ao ter em mente essa figura, volte no tempo para imaginar a juventude daquela pessoa. Talvez ela tenha realizado os seus maiores sonhos, talvez não. Talvez, pelo contrário, essa mulher tenha vivido uma existência silenciada, com desejos sendo tecidos à surdina, porque ninguém aprovaria. Era muito pequena a lista de coisas que podia desejar uma mulher nos primeiros cinquenta anos do século passado.

É nesse contexto que a trama de A vida invisível de Eurídice Gusmão (Companhia das Letras, 2016) se desenrola. Apesar de ser centrado na personagem que intitula o livro, há muito mais dramas a serem descobertos nas 186 páginas da publicação. 

Mordaças, mas para mulheres

A história acontece nos anos 1950, no Rio de Janeiro. Eurídice é uma personagem silenciosa, de extrema inteligência, mas que fica sempre na linha intransponível do “quase”: ela quase poderia ser tudo o que quisesse, se a sociedade brasileira daquele tempo permitisse. No trajeto para a sua linha de chegada, há um pai que deseja um casamento (não tão) brilhante para a sua filha, um marido que quer uma esposa que cuide da casa e dos filhos, vizinhos que desaprovam todas as empreitadas de Eurídice, filhos que parecem nem se tocar de que existe uma pessoa por trás da figura da sua mãe. E com uma vida tão podada assim, Eurídice passa longas e demoradas horas sentada no sofá, apenas pensando no seu “quase”.

Eurídice é o ponto central para que as histórias de cada personagem surjam aos poucos. É por ela que sabemos sobre Guida, sua irmã e melhor amiga que fugiu de casa, sobre Antenor e seu desejo de ter uma “mulher normal”, sobre Zélia, a vizinha fofoqueira que não é tão 8 ou 80 assim. E não há personagem que não passe por essa espécie de “raio-x” que Martha Batalha faz, costurando dramas a partir de um único ponto central: uma mulher brilhante, mas de brilho e luz ignorados.

Martha Batalha é uma autora sagaz. Não precisou de grandes reviravoltas para prender a nossa atenção, apenas a vida cotidiana e os sonhos quase impossíveis que nasciam e morriam dentro de uma senhora dos anos quarenta. E com relação a temas espinhosos, como o racismo e o machismo, ela usa de sarcasmo para torná-los um pouco mais leves. Nunca dá nome aos bois, mas a cutucada está lá e atinge quem a lê. Talvez sua única “falha” tenha sido o final, que parece correr em comparação aos outros eventos da história. Você acaba as 186 páginas se perguntando: “ué?” 

É difícil pensar que um livro desses foi recusado tantas vezes no mercado editorial brasileiro, e que só conseguiu receber o seu “sim” depois que uma editora alemã viu o seu potencial e após os direitos serem vendidos para o filme de Karim Aïnouz (O Sol na Cabeça; Praia do Futuro), estrelado por Carol Duarte, Julia Stockler e Gregorio Duvivier, além de participação de Fernanda Montenegro.

A validação precisou vir de fora para que a grandiosidade da história de Eurídice Gusmão recebesse o devido respeito, o que nos faz pensar, também, em como a jornada do autor brasileiro é árdua. Pelo menos, para Eurídice, o final foi feliz. Ah, para quem leu o livro e vai assistir ao filme, ou vice e versa, é importante saber que houve modificações, todas consentidas pela autora.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é um livro rápido, divertido, mas incômodo. Espero que, ao terminar de ler, você pense mais uma vez na mulher idosa de que falei no início deste texto. Não deixe de perguntar sobre os sonhos dela quando a encontrar. Tenho certeza de que será uma longa conversa.

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