Esdras Araujo da Silva

20 abr, 2021

Hqs e Livros

Chegou o dia de falar um pouco do quadrinho que mais me emocionou de todos que já li até hoje. A Casa, do espanhol Paco Roca, lançado este ano no Brasil pela editora Devir. A história se inicia com o regresso de José e seus irmãos à casa de veraneio em que cresceram, um ano após a morte do seu pai, que a construiu junto com toda a família. A missão é esvaziá-la para vendê-la, no entanto, no decorrer da história veremos que isto não é algo tão simples, mostrando que, por trás de cada objeto e local daquela casa, há também uma série de recordações e memórias que resgatam inúmeros momentos felizes em família. Se desfazer dela talvez também seja se distanciar um pouco de tudo isso.

À medida que os outros irmãos (Vicente e Carla) chegam à casa, tão diferentes um do outro, todos adultos e com suas vidas encaminhadas, vemos se estabelecer a dinâmica de lembranças, questionamentos, reflexões, conflitos, discussões e menções a feridas emocionais ainda tão doloridas, além de novas perspectivas a vários fatos que marcaram profundamente cada um. Ao mesmo tempo que o texto de Paco trata de questões tão intimistas, repletas de sutilezas, consegue também abranger questões universais e profundas, evidenciando um pouco sobre os caminhos e descaminhos da vida dos irmãos após a partida do último ente familiar capaz de mantê-los unidos.

A obra não se resume apenas à morte, vale destacar. Faz dela um ponto de partida para o resgate de tantas histórias, detalhes e momentos. É retratada não apenas com o peso do remorso (uma consciência com dentes para morder, como escreveu Saramago no livro Ensaio sobre a cegueira), mas com a leveza trazida pela possibilidade de ressignificação que este doloroso adeus pode trazer consigo. Tudo isso com absoluta verdade e repleto de sentimento, palavra que melhor pode definir este quadrinho. Fazendo uso da linha clara, Roca utiliza as cores para transmitir a passagem do tempo, elemento primaz para a história. Até mesmo o formato do quadrinho foi importantíssimo para melhor representar a própria casa e os cenários que formam o pano de fundo para a narrativa.

Por meio das memórias de cada filho, mergulhamos também na história de vida de Antonio, o falecido pai, de origem humilde, que conseguiu prosperar e tentou proporcionar aos filhos o máximo do que não pôde desfrutar. Podemos perceber o grande mérito de A Casa, que é o de conseguir retratar de forma simples, sutil e extremamente comovente, aquele cotidiano, tão comum a milhões de pessoas, sendo também capaz de torná-lo algo emocionante e tão tocante quando o que é apenas trivial se reveste de sentimento. Mesmo nos momentos de silêncio, a arte de Paco consegue expressar tudo isso, complementando de forma magistral seu texto e nos arrebatando para a história. Como o escritor espanhol Fernando Marías escreveu no posfácio, A Casa é um último passeio de um filho com seu pai. Paco Roca o fez com absoluta maestria, sem dúvida, ao contar a história de seu pai. Vale muito a pena a leitura.

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