Raphael (Ph) Carmo

11 mar, 2021

Games

Um pequeno grande jogo único

Atualmente, estou um pouco viciado nesses jogos Rogue Like de Deck BuildingEsses jogos pegam mecânicas que são comuns em boardgames e te colocam num cenário single player em que você possui diferentes tentativas com morte permanente. Tudo isso aproveitando as facilidades que um título digital tem em cima de jogos analógicos. Com o sucesso de Slay the Spire, surgiram outros jogos que evoluem o gênero como Monster Train e outros que trazem suas próprias modificações como Dicey Dungeons. Loop Hero, novo jogo publicado pela Devolver, segue esse fluxo, mas adiciona suas próprias mecânicas - que não deveriam funcionar juntas, mas que acabam funcionando.

É um pouco difícil resumir Loop Hero. Ele é um Roguelike-DeckBuilding-Tile Placement-Idle Game? Ficou confuso? Pois é. No jogo, você controla (?) um herói que passeia por um mundo que esta sendo apagado da existência. Sem memória, ele vai relembrando da paisagem, modificando-a aos poucos adicionando novos cenários que vão lhe oferecer recursos mas também desafios. O ambiente do jogo é sempre um caminho que dá voltas (ou um loop), cada vez que o herói dá uma volta completa, ele recupera sua vida e tem a chance de voltar para a vila com todos os seus recursos. Mas, tal como um Blackjack, o jogador tem a escolha de tentar só mais uma volta e ver se o personagem vai sobreviver para voltar ileso. Caso ele morra no caminho, volta somente com 30% dos itens coletados. Só essa opção de escolha já o torna melhor do que muitos Roguelikes que são extremamente frustrantes.

Loop Hero é simples, mas, ao mesmo tempo, tão complexo que em um parágrafo eu não consegui descrever metade do que ele oferece. Pra começar, ele meio que se joga sozinho. O personagem vai andando e lutando com os inimigos de forma automática. O que você faz nesse meio tempo é adicionar os novos cenários através de cartas previamente decididas e equipar o personagem com os novos itens que ele vai encontrando. Felizmente, o jogo pode ser pausado a qualquer momento para analisar o que você tem e também suas estratégias. Mas, se o personagem entrar em uma luta, por mais que você pause, ele vai ficar nela até o fim.

Entretanto, se ele se joga sozinho, quais opções de escolha eu tenho? Eu também me fazia essa pergunta no começo. Realmente, as opções estratégicas iniciais são poucas e as escolhas são meio óbvias. Isso porque o jogo não faz um trabalho muito bom em explicar o que está acontecendo e quais combos você pode fazer. Cada quadradinho que você coloca no mundo tem a possibilidade de fazer combos com outros, oferecendo poderes, desafios ou novos cenários. O jogo quer que você experimente em vez de te falar o que fazer, e isso tem seu valor, mas tira um pouco do controle do jogador em um jogo que já não depende tanto de você assim. Felizmente, com o tempo, você vai ganhando novas cartas e a opção de construir novas casas e equipamentos na base para desenvolver uma build interessante e poderosa.

Apesar do jogo precisar um pouco de grinding (farmar itens para evoluir), ele é extremamente viciante. Cada nova volta te dá vontade de fazer mais uma para ver até onde você vai. E toda vez que volta para a base, você quer mais uma tentativa pra experimentar aquela nova classe ou carta que pegou. As decisões de itens que escolhe passam de meio óbvias para decisões importantes. Eu mantenho essa espada que me dá mais velocidade de ataque ou troco para aquela que me dá vampirismo e vai me possibilitar a cura? Cada vez que  sobe de nível, também tem a possibilidade escolher um novo poder passivo que vai te permitir fazer combos com os equipamentos que já tem e dá um direcionamento do que escolher a partir daquele momento.

No quesito de apresentação, Loop Hero se destaca com sua Pixel Art meio suja e ao mesmo tempo linda. Os cenários e personagens nas lutas são bem simples, lembrando o início da era 16 bits, mas os personagens mais bem elaborados em close são uma sacanagem de lindeza. O clima dark continua, mas é fácil perder minutos apreciando o estilo artístico. Essa sensação mais "deprê" se mantém na trilha sonora, que traz esse ar de terror mas também de aventura. Ela é uma boa trilha, mas que vai te acompanhar só até você se se cansar e passar a ouvir podcasts enquanto joga.

Infelizmente, o texto do jogo não acompanha esse estilo mais sombrio, colocando piadas e expressões muito atuais em situações que não fazem muito sentido. A história é interessante e a cada passo você descobre mais o que está acontecendo. Mas o texto "engraçadinho" acaba com a seriedade que teria no plot, que fala muito sobre o fim do mundo e a vontade dos seres humanos de sobreviver. Por falar em texto, a fonte pixelada padrão do jogo é horrível, e eu rapidamente mudei para uma fonte para disléxicos que melhorou bastante. Ponto fraco pela escolha de fonte, mas ponto forte pela acessibilidade.

Loop Hero é um jogo bem único. Não se confunda com as artes simples e o tamanho de sua campanha. Tal como vários jogos de tabuleiro, dentro dessa pequena caixa tem bastante conteúdo e diversas opções estratégicas. É incrível a quantidade de sistemas que são colocados nele. Apesar disso, todas essas mecânicas conversam entre si criando boas sinergias. As mecânicas de descobrir as regras e estratégias enquanto se joga fazem sentindo com a história, onde nosso herói vai descobrindo e se lembrando desse mundo e ajudando a reconstruí-lo aos poucos. É uma pena que essa filosofia lute tanto contra o jogador, tirando um pouco demais o controle que já é pouco no jogo. Ele não tem um nível estratégico tão grande como outros jogos parecidos, e às vezes depende demais da sorte, mas, com o tempo, você vai aprendendo a usar o pouco que tem à sua disposição para vencer os desafios. É isso que nós humanos fazemos.

Deixe um comentário