James Cameron no set de Avatar James Cameron no set de Avatar

Entenda as Críticas de James Cameron à Estratégia da Netflix para o Oscar

As declarações recentes de James Cameron reacenderam uma discussão que acompanha a indústria há anos: o modelo de distribuição da Netflix e sua relação com a elegibilidade ao Oscar. O cineasta, responsável por blockbusters como Avatar e Titanic, criticou a postura do streaming, afirmando que a plataforma não deveria submeter seus filmes ao prêmio enquanto não adotar um padrão de lançamento cinematográfico mais consistente.

A origem do conflito entre Netflix e a experiência cinematográfica

A tensão entre a Academia e a Netflix remonta ao período de Roma, em 2019, quando Steven Spielberg se posicionou publicamente contra a inclusão de longas do streaming na disputa principal. Na época, a Netflix respondeu defendendo que seu modelo ampliava o acesso ao cinema, especialmente para quem vive em regiões sem salas de exibição. Desde então, a empresa tentou agregar prestígio ao seu catálogo, realizando parcerias com nomes como Martin Scorsese em O Irlandês.

Apesar desses movimentos, a plataforma opera com uma lógica distinta de competidores como Amazon e Apple. As duas investem em lançamentos mais tradicionais, com janelas exclusivas e distribuição ampla. Já a Netflix prefere circuitos mínimos, muitas vezes limitados, apenas suficientes para cumprir as regras de elegibilidade da Academia.

O que James Cameron critica: a “migalha” de distribuição

Segundo Cameron, a Netflix faz o mínimo possível para classificar seus filmes, priorizando a chegada rápida ao catálogo. Para o Oscar de Melhor Filme, a regra atual exige que o longa permaneça 14 dias em cartaz em pelo menos dez mercados dos Estados Unidos, algo que a empresa costuma cumprir de maneira limitada. Filmes como Frankenstein, por exemplo, chegam ao cinema em pouquíssimas salas, tanto no Brasil quanto nos EUA.

Cameron defende que essa prática enfraquece a experiência cinematográfica. Para ele, o cinema depende da relação com o público nas salas, algo que não se sustenta com exibições restritas. Em sua proposta mais polêmica, o diretor sugere que um filme só deveria ser elegível ao Oscar após exibição em 2.000 cinemas nos EUA e Canadá — um número que excluiria produções independentes e estrangeiras, como Parasita, que nunca alcançou essa escala antes de suas indicações.

O risco para filmes internacionais e independentes

Críticos apontam que a exigência proposta por Cameron tornaria inviável a participação de longas de mercados menores. Títulos aclamados, que estreiam em lançamentos limitados e crescem gradualmente, ficariam de fora da disputa. A sugestão reacendeu a discussão sobre a necessidade de equilibrar a defesa da experiência teatral com a preservação da diversidade na principal premiação do cinema.

O que está em jogo para a indústria

A crítica de Cameron também surge em meio às notícias sobre uma possível tentativa da Netflix de adquirir a Warner Bros., informação que gerou desconfiança no mercado. A plataforma afirma que, caso a compra se concretize, os filmes da Warner teriam lançamento nos cinemas. Para muitos, essa promessa entra em conflito com a prática atual da empresa, que raramente amplia significativamente o circuito de seus próprios filmes.

No centro da discussão está a necessidade de repensar janelas de exclusividade. Antes da pandemia, lançamentos com 60 ou 90 dias eram padrão. Hoje, muitos estúdios trabalham com períodos de 21 a 30 dias, e até blockbusters chegam rapidamente ao digital. A Netflix, por sua vez, mantém uma estratégia similar à de distribuidoras independentes, usando exibições mínimas apenas para cumprir regras.

O impacto na busca pelo Oscar

Mesmo sendo o estúdio que mais investe em campanhas de premiação desde 2019, a Netflix segue sem conquistar o Oscar de Melhor Filme. Para especialistas, enquanto a plataforma não reconsiderar sua relação com o cinema tradicional, continuará sendo vista como uma outsider dentro da indústria.

As críticas de James Cameron reacendem o debate sobre o futuro do Oscar, o papel das janelas de exibição e a importância da experiência coletiva no cinema. A discussão agora volta para a Academia, para o mercado e, principalmente, para a própria Netflix, que precisa decidir se continuará operando no limite das regras ou se buscará uma mudança mais ampla no modelo de distribuição.