Raphael (Ph) Carmo

19 abr, 2021

Filmes

Longa com 3 indicações ao Oscar é um show de atuações

Quatro ícones negros dos anos 1960 entram em um quarto para comemorar, discutir suas carreiras e seus papéis na luta racial dos EUA. Parece uma história interessante? Essa é a sinopse de Uma Noite em Miami, filme dirigido pela ótima atriz Regina King e também uma história real que precisou de um pouco de especulação para motivar a peça em que o longa foi inspirado.

Em 1964, depois de uma grande vitória, o famoso boxeador que seria conhecido como Muhammad Ali (Eli Goore) se encontra com seu mentor Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), o jogador de futebol americano Jim Brown (Aldis Hodge) e o cantor Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) em um hotel em Miami para comemorar. Apesar do encontro ter acontecido de verdade, a conversa que esses ícones tem dentro do quarto é pura especulação. E que conversa! Como quase todo bom filme baseado em peças de teatro, os pontos fortes de Uma Noite em Miami estão nos diálogos e nas atuações. E, apesar de o filme ser praticamente "só" isso, as suas quase duas horas passam voando de forma muito dinâmica e interessante.

Todos os atores estão em ótima forma, com destaque principalmente para Kingsley e Odom Jr. Os atores são as grandes forças do filme, demonstrando dois homens com visões diferentes da luta racial. O embate dos dois traz diversas reflexões sobre o que significa e como deve ser essa luta. Cassius Clay (que acaba entrando para o Islã e se tornando Muhammad Ali) e Jim Brown não ficam muito atrás, tendo também suas próprias personalidades, motivações e opiniões. Uma sacada genial do roteiro é arranjar desculpas para dividir o grupo em todas as combinações de duplas possíveis, oferecendo oportunidade para todos os personagens interagirem com os outros e expressarem suas opiniões. Praticamente uma análise combinatória de diálogos.

Apesar do foco do longa ser a conversa no quarto de hotel, ele utiliza de prólogos, flashbacks, um lindo epílogo e também de desculpas para mover seus personagens de lugar. Tudo isso para deixar um filme todo dependente do diálogo, tão dinâmico que parece mais uma guerra de palavras. Em pouco tempo, o longa trabalha muito bem cada personagem, mostrando fraquezas, medos e locais de fala. O destaque fica com Leslie Odom Jr., que mostra um Sam Cooke com uma personalidade superforte, entregando não só uma incrível atuação, mas também nos deliciando com seus dotes na música.

Uma Noite em Miami é uma discussão sobre o papel dos negros na sociedade, sobre empoderamento e também responsabilidade. Tal como em filmes como Dois Papas e Os Sete de Chicago, é uma narrativa que toma muitas liberdades em pegar arquétipos e se perguntar o que aconteceria se eles interagissem dessa forma. O resultado é uma história  poderosa e gostosa de assistir para refletir e homenagear esse capítulo na história da luta negra. Uma pena que o Oscar parece ter uma cota de filmes de preto e ter deixado esse fora das principais indicações. Ao que parece, ainda temos muito que lutar por esse e outros espaços.

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