Charles Luis Castro

6 mar, 2021

Filmes

Humor pontual e nomes consagrados impedem que essa sequência seja completamente descartável

Chega a ser perda de tempo reclamar do prazer que Hollywood sente em produzir sequências de filmes clássicos que ninguém pediu. Como um certo personagem diz no decorrer do longa, o cinema norte-americano parece consistir em super-heróis e sequências de filmes velhos. Uma visão pessimista, mas não tão equivocada. Então, como encarar Um Príncipe em Nova York 2? Um produto deslocado no tempo ou uma tentativa sincera de atualizar certas questões e divertir o público que agora está resguardado em casa? Um meio termo entre esses pontos de vista parece ser mais apropriado.

Dado o impacto cultural e comercial do longa de 1988, a sequência tem uma missão muito mais ingrata. Mas, ao optar por escolhas originais e colocar um pé no que já é consagrado, o filme consegue entregar algo menos requentado do que os trailers mostravam. A premissa básica é a mesma, embora esteja invertida. O agora Rei Akeem (Eddie Murphy) está sofrendo ameaças do General Izzi (Wesley Snipes), principalmente por não ter um herdeiro para assumir o trono no futuro. As antiquadas leis de Zamunda impedem que uma mulher assuma o reino e Akeem é pai de três filhas: Meeka (KiKi Layne), Tinashe (Akiley Love) e Omma (Bella Murphy). Contrariando as expectativas da família, ele retorna ao Queens para buscar seu filho perdido LaVelle Junson (Jermaine Fowler).

Disponível no Prime Video, o principal trunfo de Um Príncipe em Nova York 2 está em focar maior parte das cenas no fictício reino de Zamunda, garantido assim tomadas extremamente bonitas. Méritos para Ruth E. Carter, vencedora do Oscar por seu trabalho em Pantera Negra. Os figurinos suntuosos conferem uma identidade aos habitantes e completam a sensação de fantasia que as locações emulam. Portanto, as poucas cenas no Queens servem para resgatar o humor e espírito do primeiro longa, especialmente por trazerem velhos rostos de volta. Algo que não deve conversar com aqueles que estão conhecendo a história agora.

A direção de Craig Brewer, que trabalhou com Murphy em Meu Nome é Dolemite, é bastante pragmática, sem muitas inovações. Os veteranos tem o total domínio do espaço e das lentes e os novos rostos funcionam bem na medida do possível. Logo, o diretor acaba não tendo muitos problemas. Um Príncipe em Nova York 2 é um filme bastante consciente de suas limitações.

O roteiro de Kenya Barris busca inserir questões mais atuais e necessárias como o empoderamento feminino, especialmente na figura das princesas de Zamunda. E embora alcance certo sucesso no decorrer do filme, a ideia acaba esbarrando em momentos pouco criativos, do tipo que o espectador é capaz de prever o desfecho com facilidade. Aliás, o texto como um todo é muito mais funcional do que inventivo. A nostalgia acaba preenchendo os espaços emocionais que o roteiro não consegue trabalhar de forma mais clara.

No cenário geral, o humor é bastante afiado. Eddie Murphy e Arsenio Hall mantém a mesma química de três décadas atrás e divertem quando interpretam diversos personagens dentro do filme. Algo que se tornou marga registrada de Murphy ao longo da carreira.  Infelizmente, nem todas as cenas são engraçadas e a jornada do protagonista não é tão engajante. Dessa forma, o espectador pode não ter muito para acompanhar quando as piadas são deixadas de lado. Mas ao contrário do que pode parecer, não estamos diante de uma comédia que decide se levar a sério demais.

Um Príncipe em Nova York 2 é uma continuação que ninguém pediu, mas que incomoda menos do que outros exemplares que estão soltos por aí. Não é tão divertido quanto poderia ser, mas em tempos conturbados como esse, qualquer obra que nos faça rir já tem seu valor.

Deixe um comentário