Turma da Mônica: Laços mira nas crianças, mas não deixa de acertar os nostálgicos adultos

Maurício de Sousa moldou a infância de muita gente. Dividindo espaço nas bancas de revista com quadrinhos de super-herói e álbuns de figurinha, sua Turma da Mônica nunca deixou de ter lugar no coração dos leitores. E é com todo esse potencial de fazer os fãs se perderem num caloroso abraço que Daniel Rezende (montador de Cidade de Deus e diretor de Bingo: O Rei das Manhãs) aceita o desafio de dar vida ao primeiro filme da turminha com atores reais.

Inspirado na graphic novel homônima criada por Vitor e Lu Cafaggi (belíssima, por sinal), Turma da Mônica: Laços chega aos cinemas cheio de expectativas. E esse talvez seja o elemento-chave para analisarmos o filme: sob o ponto de vista das expectativas geradas. Deixa eu explicar melhor. Se você leu a HQ Laços e assistiu aos trailers, talvez tenha criado expectativas por algo semelhante a Conta Comigo, famoso clássico oitentista (adaptado de um conto de Stephen King) que contempla os laços de amizade entre um grupo de garotos em meio a uma experiência que muda suas vidas para sempre. Apesar de ser uma das inspirações do filme (e da HQ), sinto dizer mas Laços tá longe daquele tratamento. Então não espere aqui um roteiro mais maduro com olhar na infância, diálogos “sujos” e drama acentuado.

A proposta do Daniel Rezende é outra. E eu até entendo o diretor, afinal estamos falando da Turma da Mônica, em sua primeira adaptação live-action para os cinemas. Rezende busca em seu filme destacar a essência do que representam aqueles personagens. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali são “apresentados” ao público como vieram ao mundo (quer dizer, às revistinhas), com toda a inocência e ingenuidade que Maurício de Sousa os concebeu.

Entendendo que o foco é atender às expectativas de um público ansioso por uma experiência leve e inocente – o foco principal são as crianças, como não poderia deixar de ser –, começamos a enxergar as qualidades do longa. A primeira grande sacada foi transpor o Bairro do Limoeiro para as telas de forma fiel, fazendo dele uma espécie de universo paralelo ao nosso (assim como é nos quadrinhos), onde o guarda-roupa da Mônica só tem vestidinhos vermelhos iguais, o cachorro Floquinho é verde e os telefones ainda são com fios como eram antigamente. É um trabalho cheio de esmero, que ganha ainda mais força na sua fotografia, sempre muito colorida, e no cuidado com os enquadramentos, que nos remetem constantemente aos gibis.

Pois bem, mas de nada todo esse esforço iria adiantar se a escalação do elenco de protagonistas não fosse precisa. E esse é outro grande mérito da produção. Na jornada em busca do cachorro Floquinho, que sumiu de forma misteriosa, o quarteto formado por Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Gabriel Moreira (Cascão) e Laura Rauseo (Magali) impressiona por traduzir de forma tão perfeita os personagens que tanto amamos e trazer ainda uma química deliciosa entre eles. Fica evidente aqui e ali que os quatro ainda têm uma boa estrada para evoluir como atores, mas com um roteiro que não exige tanto assim de cada um, o resultado final acaba sendo muito positivo.

Recheado de easter eggs para deleite dos fãs mais atentos – com direito a uma desnecessária, mas ótima participação de Rodrigo Santoro como Louco –, a produção de Turma da Mônica: Laços arquitetou um plano infalível ao reunir Daniel Rezende e a obra de Maurício de Sousa. Diferente dos planos do Cebolinha, esse deu certo. Se o cinema nacional conseguir driblar as coelhadas que tanto insistem em derrubá-lo, já podemos sonhar com novas aventuras dessa turminha (e de tantos outros personagens de Maurício) ganhando vida nas telas.