Filipe Vidal

29 jan, 2022

Filmes

Diante de um cenário delicado, Spencer narra muito bem o pedaço de uma tragédia que sempre deu margem para o espectador ir além.  A obra, dirigida por Pablo Larraín (Jackie e Neruda), trouxe a atenção dos holofotes por lustrar os brilhantes espinhos dos jardins da realeza. 

Primeiramente, a trama é construída em cima de uma delicadeza sombria, que dita as relações entre os personagens e os pensamentos da protagonista. Enquanto tudo parece ser medido por uma régua autoritária, os momentos com Lady Di te tiram da pesada melancolia do contexto geral. 

A construção de princesa infeliz com a realeza arma uma estrutura que consolida o enredo, tanto na duração quanto no ambiente. É possível compreender que Diana é um peça que mexe com as regras de um jogo maior do que ela. E consequentemente, o jogo faz de tudo para tirar a peça de campo com jogadas refinadas e armadas por ambos os lados. 

Ainda assim, todos os detalhes da narrativa tentam aproximar o espectador do pesadelo vivido pela personagem, que complementam o background real da história. O desenrolar da trama traça um ringue para o espectador, delimitando que o drama não vai acontecer além das cercas mórbidas do palácio. 

Porém, esse é um dos motivos que fazem com que Spencer seja tão bem trabalhado. O filme, a sós com Kristen Stewart, te prepara para uma tensão implosiva que vai acontecer nas interações da personagem. Dessa forma, naquele determinado espaço tempo e um local cheio de memórias, a atriz desenvolve muito bem a Diana daquele momento, junto com os fantasmas do passado e os do futuro.

Definitivamente, Spencer te prende pelo que é deixado no ar. Tudo colabora pela fixação de observar uma das histórias mais trágicas até então conhecidas. A expressão de cada personagem, os diálogos abruptos, os sentimentos conflitantes e a falta de alegria te levam a crer que há um lado errado que parece ter polidez para ser mal. 

A atuação de Kristen Stewart

De outro modo, se pudéssemos emoldurar um comentário casual sobre Spencer, ele envolveria Kristen Stewart e o grupo de atrizes que foram capazes de trazer as dores da Princesa Diana. 

O ponto forte do filme é com certeza a atuação. Kristen consegue trazer uma singularidade na desenvoltura de seu papel. De um todo, a atriz se pondera a todos os sentimentos precisos em um só momento. A postura dela exibe perfeitamente, como uma vitrine neon, o que Lady Di passou em vida. 

Com a colaboração de outros personagens, Kristen brinca com a misteriosa personalidade da princesa. A protagonista sabe aproveitar muito bem seus momentos de tela e fazer com que acreditemos que o ouro da coroa reluz apenas para fora. 

Contudo, Spencer é marcado por uma montanha-russa de emoções patrocinadas pelo espectador. Os momentos que antecedem o clímax geram inquietude em quem supõe o que a personagem deixa no ar com sua impulsividade. Assim, cada incidente da trama traz uma nova ideia para a grande colisão que caminha a passos curtos.

Da mesma forma, é perceptível a polarização de relações que causam a comoção por trás das telas. Enquanto os membros da realeza falam em códigos e trocam meia dúzia de palavras com a protagonista, aqueles que estão do lado dela (ou se compadecem da sua situação) desenrolam quase dois parágrafos para reforçar a afetividade com a princesa.

Lady Di e príncipe Charles

Os detalhes da história de Spencer

Nesse sentido, Spencer te faz estabelecer mocinhos e tiranos sem qualquer rodapé complexo e individual de cada membro da família (como visto em The Crown). Isso acontece porque o filme faz questão de costurar essa estrutura sólida nas estrelinhas. A família real não passa de uma tirana sem sentimentos e Diana é a rebelde que resistiu a tudo isso enquanto confiava seus poucos momentos de alegria a um número reduzido de pessoas.

Em contrapartida, um ponto de reação da protagonista merece todo destaque. A inserção de Ana Bolena e sua história é muito bem-feita e quase parece a base sólida para erguer o vulto monstruoso de Diana. Ao passo que a  trama ilumina a impulsividade da princesa, Ana Bolena surge como uma figura muito bem construída para reforçar a narrativa.

Logo, Spencer se autentica como um dos melhores pontos de vista acerca da história de Lady Di. O filme, que se ajusta quase que num roteiro de guerra, é um dos melhores retratos sobre a realeza e o que ela guarda nas suas masmorras. A trama ganha toda intensidade graças ao belo trabalho que Kristen fez ao tratar cada singelo detalhe com sua especificidade.

Que Spencer possa continuar colhendo os frutos de trabalhar a ótica convergente de uma biografia tão bem-feita. O filme sabe remediar muito bem a intensidade, a angústia e as pessoalidades da coroa.

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