Que Horas Ela Volta? – Review

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Quantos filmes brasileiros no cinema você viu esse ano? Quantos foram de drama? Quantos foram bons? É triste a pequena quantidade de filmes brasileiros realmente bons que chegam nos Multiplex aqui do Brasil. No caso de “Que Horas Ela Volta?” o resultado foi inverso, primeiro o longa fez sucesso lá fora como no festival de Sundance e, somente por isso, chegou nas grandes redes de cinema daqui. Reflexões críticas à parte, vamos à análise.

O filme conta a história de Val (Regina Casé) que trabalha durante anos como empregada de uma mansão em São Paulo, Val tem uma relação muito próxima a Fabinho, o filho único da família, o qual ela criou desde criança, sendo mais presente que a própria mãe. Em contra ponto a isso, Val tem uma filha no Nordeste que não vê a anos, tendo que trabalhar em São Paulo para sustentá-la. A história muda quando sua filha, Jéssica, vai morar com a mãe para poder prestar vestibular e sua realidade se choca com a de Val, vendo a forma como é sua vida de empregada.

Apesar de não ser o foco principal da película, a crítica social para como os patrões tratam suas empregadas é onde o filme brilha. Mostrando situações reais nada exageradas mas que mesmo assim nos chocam como espectadores. E isso é que nos assusta, em nenhum momento Val é super maltratada ou humilhada, essas situações acontecem sim, mas somente quando há mais motivações para haver os maus-tratos, é tudo muito real e vergonhoso. É até bom que esse longa passe nos cinemas de shopping onde uma boa parte do público se encontra do lado dos patrões, talvez isso traga alguma reflexão e as pessoas mudem seus atos. Talvez.

Outro aspecto que está chocando não só os estrangeiros como os próprios brasileiros é a atuação de Regina Casé. Muitos podem não saber, mas antes de apresentar o horrível Esquenta! ela já era uma ótima atriz e humorista. E aqui ela apresenta o seu máximo, misturando cenas cômicas com dramáticas, tudo com uma atuação simples e natural, onde você se esquece que está assistindo uma obra de ficção.

Para ajudar na imersão, não podemos deixar de falar da direção precisa de Anna Muylaert que, usando de uma direção de fotografia experimental e genial, nos coloca como voyeurs do que está acontecendo naquela casa. Sempre usando uma câmera parada e escondida, dando a impressão que somos como as empregadas, sempre participando dos eventos no escanteio, nos escondendo para tentarmos ser invisíveis e nos esgueirando para entender o que se passa.

Para terminar digo: Veja Que Horas Ela Volta? no cinema! Prestigie o cinema nacional quando ele mais merece e aprenda com esse lindo filme que tem tanto para ensinar de algo que acontece todos os dias embaixo dos nossos narizes. A mensagem vai principalmente para aqueles que falam que o racismo não existe mais, ou que a luta de classes é só mais uma invenção de certas visões políticas. De fato, a luta de classes pode incomodar alguns, pois no dia-a-dia, o que acontece normalmente é um massacre moral dos menos desfavorecidos. Vamos torcer para que ele seja pelo menos indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ( tem boas chances), ou que possa até ganhar, seria uma ótima forma de finalmente trazer a estatueta para casa.