Charles Luis Castro

13 maio, 2021

Filmes

Mélanie Laurent brilha em um suspense extremamente claustrofóbico

Num período de grandes produções e várias franquias, parece um devaneio imaginar que é possível fazer cinema de qualidade com uma boa ideia e poucos recursos. É óbvio que produções assim existem, porém, são eclipsadas pelo blockbuster da vez. No entanto, em tempos de pandemia, os estúdios e serviços de streaming precisam alimentar o público com a maior variedade de conteúdo possível. É dessa necessidade que Oxigênio, novo longa lançado pela Netflix, encontra espaço para brilhar. E mesmo com alguns problemas, é impossível não ser fisgado pela premissa instigante.

Uma mulher (interpretada pela ótima Mélanie Laurent) acorda em uma cápsula de criogenia, atordoada e sem nenhuma memória concreta de sua identidade e do motivo de estar lá. Contando apenas com a ajuda da inteligência artificial MILO (voz de Mathieu Amalric), ela precisa encontrar respostas antes que todo o ar respirável do ambiente chegue ao fim. Para fins de comparação, Oxigênio é uma mistura de Enterrado Vivo (estrelado por Ryan Reynolds) e 2001: Uma Odisseia no Espaço. Mas isso serve apenas para situar o espectador, já que o roteiro da estreante Christie LeBlanc nunca soa como uma cópia barata. Sua escrita é envolvente e trabalha bem com o mistério por trás da situação da protagonista.

Conhecido por filmes mais frenéticos como Alta Tensão e Predadores Assassinos, o diretor francês Alexandre Aja consegue adaptar seu estilo ao que é proposto pela trama. Sua câmera passeia pelo ambiente restrito dando ao espectador a sensação claustrofóbica vivida pela protagonista. Nos momentos de tensão, o foco é total no rosto de Laurent, captando com clareza as diversas emoções expressadas. E mesmo com a limitação de espaço, estamos diante de um longa bastante fluído. Isso evita a fadiga e desinteresse de quem estiver assistindo.

Embora conte com roteiro e direção afiados, o projeto cairia por terra sem a atriz certa em cena. Mélanie Laurent é o coração da obra, entregando uma das melhores atuações desse ano. A interação com MILO funciona como um ponto de referência para sua performance, mas todo seu trabalho é baseado nas reações diante de situações que causam pânico, raiva, tristeza, incredulidade. Além da entrega física, especialmente nos momentos em que precisa lutar contra a máquina em que está presa. É possível questionar algumas atitudes de sua personagem, mas isso diz mais sobre os rumos da história.

Mesmo com o suspense e as revelações intrigantes, Oxigênio derrapa na reta final. Adianto que as dúvidas do espectador são sanadas, mas o roteiro evolui para algo grandioso demais se levarmos em conta tudo o que havia sido mostrado. A proposta minimalista se perde diante de discussões existenciais sobre a vida e os caminhos da humanidade. Sei que essa é uma questão subjetiva, tendo em vista que o encerramento pode agradar parte da audiência. Ainda assim, senti a necessidade de usar da suspensão de descrença em determinados trechos.

Em linhas gerais, Oxigênio conta com uma boa argumentação, uma direção precisa e uma excelente atuação. É possível até traçar paralelos com o momento pandêmico enfrentado por nossa sociedade, tornando a narrativa bastante atual. Com o perdão do trocadilho, esse é um respiro de qualidade dentro do catálogo da Netflix.

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