O Diabo de Cada Dia (Netflix) | Crítica

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Com um elenco talentoso e uma história violenta, O Diabo de Cada Dia é uma narrativa poderosa sobre o pior lado do ser humano

Pessoas diferentes unidas por coincidências violentas, ou apenas o acaso. Essa é uma das marcas registradas das obras dos Irmãos Coen. A maneira como eles conseguem conectar pontos tão deslocados, dando a impressão de que aquilo realmente deveria acontecer seja por uma força maior ou algo assim, é esplêndida. O Diabo de Cada Dia, novo longa original da Netflix, não foi dirigido pela dupla. Mas é impossível não pensar neles em cada cena. Porém, mesmo diante de uma comparação injusta, esse é um material com suas próprias qualidades.

Baseada no livro escrito por Donald Ray Pollock – que também é usado como narrador em alguns momentos – a trama acompanha a vida de diferentes personagens espalhados pela divisa dos estados de Virgínia Ocidental e Ohio entre as décadas de 40 e 60. Em comum, apenas as tragédias do cotidiano embaladas por uma fé profunda característica de regiões do Meio Oeste americano. De forma quase episódica, o filme dirigido por Antonio Campos apresenta e trabalha tais rostos diante do público, numa teia de eventos tão impossíveis que até são capazes de arrancar um riso nervoso. Em termos gerais, é uma história sobre o pior do ser humano e nossa relação com o ambiente em que estamos inseridos.

A direção de Antonio, que também assina o roteiro ao lado do irmão Paulo Campos, é precisa. Ele domina a beleza natural das paisagens interioranas enquanto passeia com a câmera através de uma igreja lotada ou invade o espaço dos atores com close-ups incrivelmente equilibrados. Ele sabe também o momento de apresentar um plano mais aberto, quando a natureza e malícia humana se encontram (palmas para a fotografia do inglês Lol Crawley). Contudo, é inegável a sensação de que O Diabo de Cada Dia poderia ir muito além do resultado final. Provavelmente se o diretor investisse mais na espontaneidade e menos no artificial.

Divulgação: Netflix

Tudo no filme é perfeitamente moldado. Até mesmo detalhes que parecem avulsos estão em tela com uma finalidade. É como uma peça onde a realidade está por trás das cortinas e só temos acesso ao que está sendo encenado. Quando a violência vira o aspecto principal, aparentemente desordenada, o ensaio continua explícito. Entre sotaques caipiras carregados, Antonio Campos emula o cinema de nomes mais famosos nesse tipo de narrativa. Mas, na tentativa de homenagear, ele imprime pouco de sua própria personalidade. Parece, portanto, um caso onde a forma supera o conteúdo.

Sem dúvidas, a força de O Diabo de Cada Dia reside eu seu elenco. São grandes nomes da indústria que desfilam pela tela, alguns com mais tempo do que outros. Mas todos servem muito bem ao propósito de contar uma história tão absurda. É inegável que o destaque fica na trinca Bill Skarsgard, Tom Holland e Robert Pattinson. Mesmo que esteja muito bem na saga IT, é uma boa oportunidade ver Bill atuando sem tantos artifícios. Ele é um talento considerável. Não é esse papel que vai convencer os fãs de que Pattinson será um ótimo Batman, mas sua galeria de atuações segue cada vez mais diversificada. Seu personagem é odiável. Mas é Tom Holland que agarra a oportunidade com mais afinco, na ânsia de mostrar talento e desvencilhar sua imagem do que fez como o Homem-Aranha no MCU. E o ator merece papéis tão maduros quanto esse.

O Diabo de Cada Dia não usa a violência gratuita como muleta, mas sabe como transformar essa sucessão de tragédias em uma história concisa sobre a escuridão no coração do homem, sobre fé e principalmente sobre a ausência dela. Com um pouco mais de ousadia, poderia repousar ao lado de obras marcantes sobre tragédias do cotidiano.

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