Nuremberg (2025) Crítica Nuremberg (2025) Crítica

Nuremberg (2025) Crítica: uma boa trama, mas um foco errado

O julgamento de Nuremberg foi um dos momentos mais importantes do século XX: pela primeira vez, líderes de um regime derrotado eram levados à justiça por “crimes contra a humanidade”. O filme “Nuremberg“, dirigido por James Vanderbilt e estrelado por Russell Crowe, Rami Malek e Michael Shannon, chega em um momento politicamente efervescente, e sua mensagem sobre responsabilidade e memória histórica é mais urgente do que nunca. No entanto, o longa comete um erro estratégico ao focar sua narrativa no psiquiatra americano Douglas Kelley (interpretado por Malek), em vez de no que realmente importa: o confronto monumental entre a lei e o mal absoluto.

Um espelho para o presente

Vanderbilt não faz questão de esconder suas intenções. “Nuremberg” é um filme sobre o passado que fala diretamente ao presente. As cenas em que promotores debatem se líderes nazistas devem ser sumariamente executados ou julgados publicamente ecoam discussões contemporâneas sobre tribunais internacionais, crimes de guerra e a dificuldade de responsabilizar ditadores.

O roteiro não tem medo de cutucar feridas abertas. Em um dos diálogos mais afiados, Hermann Göring (Russell Crowe) questiona o promotor americano sobre as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, e sobre o bombardeio de civis alemães pelos Aliados. A cena é desconfortável, e é para ser. O filme não está interessado em maniqueísmos fáceis; quer mostrar como até monstros podem ter argumentos que nos fazem engasgar.

Russell Crowe rouba a cena em “Nuremberg”

O grande trunfo do filme é, sem dúvida, Russell Crowe como Hermann Göring. O ator entra na fase de “grande ator coadjuvante” de sua carreira. Seu Göring é uma presença magnética: imponente, inteligente, sedutor e profundamente perturbador. Há momentos em que sua expressão parece quase humana, vulnerável e então, num piscar de olhos, vislumbramos a fúria contida de um homem que ordenou a morte de milhões.

Crowe entende que o verdadeiro horror de Göring não está em sua monstruosidade explícita, mas em sua banalidade. Ele não é um demônio de chifres; é um homem que poderia ser seu vizinho, contando piadas e reclamando da comida da prisão. E isso é infinitamente mais aterrorizante.

O problema do roteiro é focar no personagem errado

O filme é baseado no livro “The Nazi and the Psychiatrist”, de Jack El-Hai, que explora a relação entre Göring e o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek). A intenção é usar Kelley como âncora emocional e moral, um homem que quer “dissecar o mal” para entender como pessoas comuns se tornam monstros.

O problema é que Kelley é um personagem pouco interessante, e Rami Malek não consegue elevá-lo. O ator repete os mesmos tiques de atuação que marcaram seus papéis anteriores: olhares intensos, silêncios dramáticos, uma aura de estranhamento que funcionava muito em “Mr. Robot”, mas que aqui parece fora de lugar. Kelley é eticamente frágil desde sua primeira cena (ele faz truques de mágica para impressionar uma mulher no trem) e suas motivações são confusas: quer entender o mal, mas também quer um livro best-seller. O filme nunca decide se devemos simpatizar com ele ou sentenciá-lo.

O pior é que personagens mais interessantes ficam em segundo plano. Michael Shannon está muito bem como o promotor Robert Jackson, mas seu arco é apressado. Leo Woodall, como o tradutor judeu Howie Triest, também se destaca demais em poucos minutos (e a cena em que ele confronta o comandante de Auschwitz é de partir o coração). Richard E. Grant merecia muito mais tempo. John Slattery está ali apenas para ser o John Slattery de sempre: cínico, engraçado, eficiente.

O resultado é que a cada corte de volta para Kelley e seus dilemas, sentimos um alívio tenso, não porque queremos vê-lo, mas porque queremos voltar para Göring e para o tribunal.

Crítica de “Nuremberg”: importante e imperfeito

“Nuremberg” é um filme que merece ser visto e discutido. Sua mensagem sobre a importância de responsabilizar líderes por crimes contra a humanidade é mais atual do que nunca. Russell Crowe entrega uma das melhores atuações de sua carreira. E as cenas do tribunal, quando finalmente acontecem, são muito boas.

No entanto, o longa peca ao escolher o âncora narrativo errado. Eu não quero saber dos dilemas de um psiquiatra eticamente duvidoso; quero ver a história da justiça sendo feita diante dos olhos do mundo. Ao focar em Kelley, o filme desperdiça seu potencial mais óbvio: ser um épico sobre a lei, a verdade e a memória.

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