Maldição da Múmia (2026) | Crítica do filme de Lee Cronin Maldição da Múmia (2026) | Crítica do filme de Lee Cronin

Maldição da Múmia (2026) | Crítica do filme de Lee Cronin

Maldição da Múmia, novo filme do diretor Lee Cronin, chega aos cinemas carregando a promessa de ressuscitar o horror mumificado com sangue, vísceras e uma classificação indicativa adulta. Após o sucesso de “Evil Dead Rise” (conheça mais sobre o filme), Cronin parecia o nome ideal para finalmente entregar uma visão aterrorizante de um dos monstros mais icônicos do cinema. No entanto, o resultado é uma experiência frustrante: um filme que se perde na própria ambição, tropeça em referências óbvias e enterra sua identidade sob uma montanha de clichês.

A premissa

A trama acompanha a família Cannon, que sofre um trauma irreparável quando a filha mais velha, Katie (Emily Mitchell), é sequestrada durante uma viagem ao Egito. Oito anos depois, a garota é encontrada milagrosamente dentro de um sarcófago ornamentado, nos destroços de um acidente aéreo. A Katie que retorna, agora interpretada por Natalie Grace, no entanto, não é a mesma. Algo sinistro habita seu corpo, e a família precisará confrontar o mal que veio junto com ela.

A premissa é boa e promete um mergulho no terror psicológico e sobrenatural. O problema é que “Maldição da Múmia” nunca decide o que quer ser. É um filme de criança possuída, um thriller de investigação no Egito, um drama familiar sobre luto e, ocasionalmente, um filme de múmia. Essa indecisão transforma a experiência em um tortuoso exercício de paciência.

Mais possessão do que múmia

O maior equívoco do filme é justamente ignorar sua premissa central. Apesar do título e da ambientação egípcia, a criatura que assombra Katie tem muito mais a ver com um deadite de “Evil Dead” ou uma reencarnação de Regan, de “O Exorcista” , do que com qualquer versão clássica da Múmia. Os elementos distintivos do monstro são tratados como detalhes superficiais: há algumas bandagens, um besouro aqui e ali, mas nada que justifique chamar a criatura de “múmia”.

Cronin parece mais interessado em replicar as dinâmicas familiares e o humor ácido de seus filmes anteriores. A protagonista maligna rosna impropérios, se contorce e causa uma enxurrada de sangue – exatamente como em “Evil Dead Rise”, mas sem a ironia ou a criatividade que tornaram aquele filme especial. A sensação é de que o roteiro foi escrito como um filme de possessão genérico e depois teve elementos egípcios costurados às pressas.

Maldição da Múmia (2026). Reprodução.

Personagens e suas decisões ilógicas

Com 2 horas e 17 minutos de duração , “Maldição da Múmia” é excessivamente longo para um filme de terror e cada minuto extra pesa contra sua coerência. Os membros da família Cannon são papelão humano ambulante. O protagonista Charlie (Jack Reynor) passa o filme inteiro com uma expressão vazia, reagindo ao horror como quem espera o ônibus. Sua esposa (Laia Costa) tenta, mas o roteiro lhe dá pouco o que fazer. Os filhos mais novos existem apenas para gritar e servir de isca.

O pior, no entanto, são as decisões absurdas que beiram o buraco de roteiro. Em um momento chocante, um personagem importante morre em circunstâncias altamente suspeitas, e a família simplesmente segue em frente como se nada tivesse acontecido. Não há luto, não há investigação, não há questionamento. É como se o filme esperasse que o espectador desligasse o cérebro por completo.

O alívio cômico, quando aparece, é tão deslocado que mais confunde do que diverte. O tom oscila entre o drama pesado e o horror corporal explícito sem nunca encontrar um equilíbrio. Uma cena fúnebre que deveria ser comovente se transforma em um banho de sangue e a transição é tão abrupta que parece outro filme.

O que funciona bastante

Se há algo a salvar, é Natalie Grace como a Katie corrompida. Mesmo sob camadas de próteses de látex (que, infelizmente, lembram mais um fantasia de Halloween do que uma criatura aterrorizante), ela entrega uma fisicalidade muito boa. Seus movimentos são desconjuntados, sua voz é um sussurro ameaçador, e ela consegue transmitir tanto a fragilidade de uma vítima quanto a ferocidade de um monstro.

Os efeitos práticos também merecem elogios. Há sangue de verdade (ou sua imitação), membros sendo arrancados e um uso criativo de um escorpião que deve arrancar algumas reações da plateia. Cronin claramente se importa com a textura do gore; o problema é que, sem uma história que nos faça investir nos personagens, o sangue se torna apenas barulho.

A detetive egípcia (com a ótima May Calamawy) é um respiro bem-vindo. Suas cenas de investigação, que lembram um filme noir, são as únicas que trazem alguma atmosfera de “mistério egípcio” ao filme. Infelizmente, ela é relegada a um papel coadjuvante que mal cruza com a trama principal. “Maldição da Múmia” poderia ter focado nela e menos dos Cannons.

Maldição da Múmia (2026). Reprodução.

Veredito sobre “Maldição da Múmia” de Lee Cronin

“Maldição da Múmia” é um filme que sofre de uma crise de identidade. Quer ser um terror psicológico familiar, um slasher sangrento e um blockbuster de mistério  e acaba não sendo nenhum deles de forma satisfatória. Lee Cronin demonstra talento para a imagem e para o horror visceral, mas sua falta de foco e um roteiro repleto de personagens esquecíveis enterram qualquer possibilidade de seu filme se tornar um clássico.

A comparação com as aventuras de Brendan Fraser é inevitável, mas enganosa: aquele era um filme de ação e aventura. A comparação com Tom Cruise é injusta: pelo menos aquele tinha uma visão (equivocada) de universo compartilhado. “Maldição da Múmia” fica no limbo: não é divertido o bastante e não é assustador o bastante.

Aos fãs de Cronin, resta a esperança de que seu próximo projeto recupere a energia crua de “Evil Dead Rise”. Aos fãs de múmias, é melhor aguardar a continuação do filme de Brendan Fraser. Este aqui, infelizmente, deveria ter ficado no sarcófago.