O diretor Osgood Perkins vive um momento prolífico. Após o sucesso de “Longlegs” (leia a crítica) e a comédia de terror “O Macaco“, ele entrega “Keeper” (Para Sempre Medo), um filme que promete mergulhar nas profundezas do relacionamento abusivo através das lentes do horror psicológico. Com a ótima Tatiana Maslany no centro da trama e Rossif Sutherland como seu parceiro, o filme chega carregando a assinatura visual de Perkins. Mas será que o resultado final está à altura de seu currículo?
A premissa de “Keeper”
A trama é direta: Liz (Tatiana Maslany), uma artista sensível, acompanha seu namorado, Malcolm (Rossif Sutherland), até uma cabana remota da família para celebrar o aniversário de relacionamento. O que deveria ser um refúgio romântico rapidamente se transforma em um pesadelo claustrofóbico quando eventos sobrenaturais começam a perturbar a estadia do casal. O roteiro, assinado por Nick Lepard, estabelece desde o início uma dinâmica incômoda: Malcolm insiste para que Liz coma um pedaço de bolo de chocolate – mesmo depois que ela afirma não gostar da sobremesa – e, a partir deste ato de consumo quase ritualístico, o terror se instala.
O pesadelo visual de Perkins
Se há algo que “Keeper” faz excepcionalmente bem, é construir uma atmosfera opressiva através da imagem. O diretor repete a parceria com o diretor de fotografia Jeremy Cox, e juntos eles transformam a cabana em um personagem por si só. As janelas enormes que revelam a floresta escura, os dutos de ar que ecoam sons indistintos e os corredores que parecem se fechar sobre Liz são explorados com precisão cirúrgica. A cabana nunca revela completamente sua planta baixa, criando uma sensação de desorientação proposital.
Os editores Greg Ng e Graham Fortin também merecem destaque. Em uma sequência, o movimento da mão de Liz em seu cabelo se transforma suavemente em uma imagem das árvores ao redor da cabana. A técnica conecta o corpo da protagonista à terra, já sugerindo que o horror não é uma força externa, mas algo que já ferve sob sua própria pele. É algo que pode remeter ao cinema de Park Chan-wook, o que eleva o material.

Maslany como âncora
Tatiana Maslany é, sem sombra de dúvida, o maior trunfo do filme. A atriz é muito versátil e mostra uma performance visceral e multifacetada que, sozinha, impede que a produção naufrague completamente. Liz é uma mulher com um histórico de relacionamentos fracassados, e Maslany traduz essa insegurança em cada gesto contido, cada sorriso hesitante e cada olhar de canto. Conforme sua sanidade se deteriora, ela transita entre a docilidade, o medo e a fúria com uma fluidez impressionante. O problema é que ela está, em grande parte, carregando um personagem cujas motivações o roteiro se recusa a explorar com profundidade.
Além disso, Rossif Sutherland é um caso à parte. A voz grave, porte imponente e o comportamento distante deixam pouca dúvida sobre sua índole desde o primeiro momento. Mas uma coisa fica na mente: Malcolm é cúmplice ou vítima das forças sobrenaturais? O primo Darren (Birkett Turton) e sua acompanhante Minka (Eden Weiss) poderiam ser mais aproveitado. Darren é um personagem irritante cuja presença mais atrapalha do que ajuda e Minka vai tentar tirar risadas do espectador.
Um roteiro que anda em círculos
A grande falha de “Keeper” está no texto de Nick Lepard. O filme se apoia em tropes cansados do gênero de terror de cabana. Liz ouve barulhos estranhos, investiga, não encontra nada, tem um pesadelo e repete o ciclo. Esta liturgia repetitiva ocupa a maior parte da duração, e o que deveria gerar tensão progressiva acaba gerando tédio. A sensação é de aprisionamento não pela trama, mas pela estrutura narrativa que se recusa a avançar.
O filme também sofre com uma exposição desastrada da mitologia. Em um determinado momento, um personagem simplesmente se senta para explicar a história da casa e suas maldições de forma didática. Perkins, que em “Longlegs” foi criticado por um final expositivo demais, aqui parece dobrar a aposta, eliminando qualquer resquício de mistério que o espectador pudesse desfrutar.

Veredito de “Keeper”
“Keeper” é um filme que se beneficia de uma performance poderosa de Tatiana Maslany e de uma direção de arte e fotografia impecáveis. A assinatura visual de Osgood Perkins está intacta, e há momentos de pura beleza macabra. Isso, com pouca certeza, deve agradar muitos fãs de horror.
No entanto, o roteiro raso e previsível, a falta de química entre os protagonistas e o ritmo arrastado transformam a experiência em um exercício de paciência. Perkins parece mais interessado em criar uma “vibe” do que em contar uma história coerente ou oferecer um comentário significativo sobre relacionamentos abusivos. O longa é, em sua essência, um exercício de estilo frustrante que prova que atmosfera, sozinha, não sustenta um longa-metragem.
Para os fãs do diretor, pode haver prazer na descoberta de suas escolhas estilísticas. Para o público geral, “Keeper” é um convite para entrar em uma casa bonita, mas vazia – e esperar pacientemente por algo que nunca realmente acontece.