Crítica | Green Book – O Guia

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Green Book – O Guia é um road movie emocionante sobre racismo e solidão

A representatividade do movimento e da cultura negra está galgando cada vez mais espaço na indústria cinematográfica. Em 2017, “Monlightlevou o Oscar de Melhor Filme; em 2018, o terror “Corra” concorreu na mesma categoria. Este ano, a Academia indicou à sua principal categoria três produções que abordam a temática: “Pantera Negra”, “Infiltrado da Klan”, e “Green Book: o Guia”.

Entre o blockubuster do super-herói da Marvel e a quase comédia sobre um policial negro infiltrado na Ku Klux Klan, destaco aqui a dramédia baseada em fatos reais Green Book: O Guia, que chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 24, e recebeu cinco indicações ao Oscar 2019.

Dirigido por Peter Farrelly (Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros), Green Book é um road movie que nos leva ao Sul dos Estados Unidos na década de 60, época onde a segregação racial ainda era regulamentada e duramente aplicada, sobretudo naquela região.

Logo de cara somos apresentados ao chefe de família de descendência italiana chamado Tony Lip, personagem de Viggo Mortensen. Malandro e carismático, Tony vive pulando de trabalho em trabalho. Em uma dessas mudanças ele é apresentado a um famoso pianista negro chamado Don Shirley, interpretado por Mahershala Ali, que precisa de um motorista/segurança para sua turnê no sul do país.

O encontro tinha tudo para não dar certo. Dr. Shirley é um homem intelectual, às vezes esnobe, de hábitos discretos. Além do temperamento ardente, Tony é o típico homem branco que não se considera preconceituoso, mas reproduz comportamentos e ideias racistas o tempo todo.

A trama aposta na improvável amizade entre dois homens completamente diferentes e vai, aos poucos, levantando questões políticas e sociais que cercam a cultura do racismo daquela época. O tal “livro verde” do título é exibido rapidamente, mas seu conteúdo e sua finalidade causam um intenso baque. Trata-se de um guia para viajantes negros – homens, mulheres, famílias – com indicações dos lugares onde eles poderão frequentar em segurança.

Ainda que não apresente um argumento inédito, Green Book: O Guia se consagra graças às atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Os dois estão incríveis em cena e comprovam as merecidas indicações à estatueta de Melhor Atror e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente.

À medida que avança por estados como Mississipi e Alabama, que faziam do racismo uma bandeira, o personagem de Mortensen é obrigado a encarar a miserável realidade à qual a população negra, incluindo o seu novo chefe, é submetida . Em uma cidade há toque de recolher – negros não podem ser vistos na rua sob pena de prisão; em outra, lojas de roupa se recusam a deixar que pessoas negras provem alguma peça.

Acostumado com as absurdas restrições, Dr. Shirley se esquiva dos constrangimentos e segue exibindo seu talento diante do piano para uma plateia branca, elitista e hipócrita. Esse comportamento somado a uma descoberta na metade do filme revela um sentimento de profunda solidão do personagem, que apesar de dançar conforme à música, segue acumulando profundas feridas causadas pela exclusão social.

Todo esse quadro poderia tornar o longa um doloroso e profundo soco no estômago, mas a mão cômica de Peter Farrelly acaba amenizando o desconforto. São vários os momentos cômicos compartilhados pelos dois personagens. Enquanto Lip trilha um caminho de “desconstrução” de preconceitos, Dr. Shirley parece absorver minimamente o espírito livre do funcionário e se permite algumas liberdades jamais imaginadas, como a de comer frango frito com as mãos.

Talvez esse seja o principal erro do filme: tratar uma história de racismo de forma complacente. O que pode ser reflexo de uma equipe de produtores majoritariamente brancos. A crítica é válida, mas não tira o brilho de uma história comovente e que em certos aspectos ainda é, infelizmente, mais atual do que muitos imaginam.