Lucas Muniz

16 nov, 2021

Filmes

Apático em pontos que não deveriam ser e subaproveita personagens que deveriam ter mais espaço de tela

É fato que muito já se sabe sobre o a parte cósmica no Universo Cinematográfico Marvel, tendo este enviado a principal ameaça do universo até então. Contudo, existia mais do que já havíamos visto antes, uma raça alienígena milenar já habitava os confins do espaço, uma das criações dos Sentinelas, em específico, Arishen, uma raça de poder, força e inteligência sem precedentes: estes são os Eternos. Grupo criado e enviado para a Terra para proteger a vida e deixar o planeta se desenvolver como seres sapientes e, principalmente, para erradicar uma força maligna conhecida como Deviantes.

Para um universo cinematográfico com mais de 10 anos de existência, introduzir novos personagens, fazer com que esses interajam bem entre si, possuir sinergia dentro da história e fazer com que nos importemos com eles já não passa a ser mais nenhum desafio, é uma obrigação e há uma expectativa de que isso aconteça. Estamos falando de dez personagens dividindo 157 minutos de projeção, e o que esperamos é atendido. Nas mãos da diretora e recente ganhadora dos três principais prêmios da academia, Chloé Zhao (Nomadland), Eternos mantém um bom equilíbrio (na maior parte do tempo, pelo menos) entre todos os seus personagens e suas importâncias dentro da trama, tendo cada um deles um valor emocional e motivacional entre si.

De longe é estabelecido o conceito de que o grupo é uma família e agem como tal, no qual tudo isso é fortalecido pela figura da personagem Ajak (Salma Hayek), sendo ela a líder deles e a que responde diretamente ao seu criador Arishen. Somos introduzidos a eles todos de uma vez com uma sequência de ação inicial onde fica estabelecido a capacidade de cada um e suas habilidades individuais. A parte mais interessante é que nem todos os poderes deles são com o intuito do combate, sendo distintas e focadas em funções diferentes, o que cria um senso de unidade, pois eles são fortes por si só, mas juntos são quase imbatíveis, se completam como uma unidade.

Conforme a história ganha progresso, são estabelecidos núcleos de personagens, uma decisão inteligente tendo em vista que seria muito contraproducente explorar tempo de tela individualmente. O núcleo principal fica a cargo de Sersi (Gemma Chan), Sprite (Lia McHugh) e Ikaris (Richard Madden). Os três são os que ficam encarregados de levar a trama adiante e os que de longe possuem maior destaque durante o filme, tanto nas cenas do presente quanto nas cenas do passado. Existe um charme e um carisma muito grande em toda a apatia de Ikaris, ele oferece um certo mistério e uma personalidade que beira ao ambíguo, mesmo com todas as suas convicções. Sprite tem uma presença interessante em cena, mas é limitadíssima a momentos chave para gerar algum peso emocional, o que é uma pena, porque a personagem possuía um enorme potencial diante do drama e era a única que demonstra sentir o peso de uma vida sem fim. E Sersi, a protagonista, possui muito carisma, porém, poderia ter mais presença em cena, nunca a vemos exatamente ser dona da projeção e sofre uma baita de uma ofuscação por personagens mais interessantes do que ela. Surge uma responsabilidade muito grande dada à Sersi, o que lhe atribuiria uma importância maior, contudo, ainda parece que ela não é relevante para o que está acontecendo, sempre ficando à sombra dos que a rodeiam.

Chloé Zhao possui uma mão muito boa no quesito de desenvolver e aprofundar personagens (o que acontece na metade do tempo), e em Eternos ela alia isso à narrativa escolhida para a história. Somos levados do passado ao presente e vice-versa. Uma forma honesta e que faz sentido para o filme, já que os personagens chegaram a Terra a milhões de anos. Porém, não é nada que já não tenhamos visto em filmes recentes do gênero, como, por exemplo, Capitã Marvel ou Homem de Aço. Essa narrativa acaba se tornando por vezes não tão sucinta e acaba sendo, por muito tempo, expositiva demais e sempre surge em decorrência de alguma cena que acontece no presente. Quando acontece, somos levados ao passado para entendermos o porquê aquilo está acontecendo ou sobre o motivo pelo qual o personagem X está fazendo algo, e que, no fim das contas, fica bastante previsível. E não só em sua narrativa, mas também com alguns pontos chave para o desenvolver da trama - um em especial é bem importante, mas se o espectador estiver um pouco atento ele desvenda nos primeiros 20 minutos de projeção.

A história progride de uma forma muito inconstante, mesmo acertando seu tom, que acaba sendo um pouco mais diferente do usual do Universo Cinematográfico Marvel, mas sem perder os clichês de sua fórmula. Por horas temos um desenrolar muito grande dos eventos, com diálogos dinâmicos, sequências com cortes que mantém um ritmo que prende a atenção, e, em outros casos, parece de fato uma eternidade de coisas jogadas em tela sem propósito algum e que não levam a história adiante. Salvo uma cena onde há um almoço e os heróis estão discutindo sobre o que é o heroísmo e o conceito disso e podemos entender como cada um pensa sobre o mundo, o que o cerca etc.

Apesar de cada personagem no filme possuir características próprias e serem bastante distintos em tudo que lhes compõem, é custoso acreditar que seres transcendentais e especiais que são vivos há milhares de anos e imortais sejam tão bobos em diversos momentos. Mesmo que exista a vivência deles na Terra e o apego pela vida no planeta por terem convivido séculos entre os humanos, ainda é difícil de acreditar em certas ações feitas por alguns dos Eternos. Ainda somado a isso, é quase impossível não falar na falta de aproveitamento da personagem Thena, vivida por Angelina Jolie, e Ajak. Dois grandes potenciais totalmente esquecidos dentro da trama. Thena tem uma condição que muito seria interessante de ser explorada com profundidade e que poderia atribuir um valor bastante substancial à trama. Infelizmente, fica resumida em ser apenas um rosto famoso que vai chamar público para o filme e a algumas cenas pouco inspiradas de ação.

O mais interessante em ser observado em Eternos, fora a sua dinâmica familiar, é que não existe exatamente uma ameaça a ser enfrentada, o que na verdade existe são conceitos e perspectivas conflitantes. Mesmo diante da dúvida, traição e subversão das coisas, não existe uma maldade pura (com exceção dos Deviantes) que precisa ser combatida em uma grande luta. Dito isso, complemento em dizer que o vilão principal não oferece nada de interessante ou ameaçador, tampouco um visual intimidador, nada é atrativo ou criativo no que diz respeito ao único Deviante sapiente que aparece em cena, mais um vilão que entra no hall de vilões ruins da Marvel.

A fotografia é assinada por Ben Davis e proporciona, em alguns momentos, belas composições de luz e silhuetas que sempre servem à cena e valorizam os momentos, principalmente nas horas de evocar a posição do herói, como o uso de contra plongée, por exemplo. Mas na maior parte do tempo não há o que destacar além de um feijão com arroz sem muito tempero aqui. Aliando-se à apatia da fotografia, temos uma trilha sonora tão esquecível quanto o vilão. Sem um tema memorável ou uma cadência que alimente o ritmo das cenas, ou mesmo ajude na composição de uma sequência. Existe também um uso exacerbado de CGI em planos abertos, em uma concepção que até beira o criativo, se esta fosse juntamente feita com elementos práticos e também reais, mas fica limitado a pequenos cenários na maior parte do tempo e aposta fervorosamente na ferramenta artificial.

Eternos é visualmente interessante, com personagens e dramas que se fossem bem explorados poderiam ser de extrema soma à história, mas sofre com a fórmula Marvel e seus clichês do gênero e pouco se aventurando em explorar novos caminhos para um futuro. Apático em pontos que não deveriam ser, subaproveita personagens que deveriam ter mais espaço de tela e com conteúdo bem mais relevantes e curiosos que os demais. Tem uma diretora com assinatura, contudo, nem parece ser um filme dela. Eternos é mais uma aventura Marvel de uma tarde.

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