Edipo Pereira

16 dez, 2020

Filmes

Produção da Netflix dirigida por Ron Howard é carregada pela boa presença de Amy Adams e Glenn Close

Para quem está acompanhando e curtindo a qualidade de Mank, longa da Netflix dirigido por David Fincher, há uma outra dica dentro do catálogo do serviço de produção que visa a corrida para o Oscar de 2021: Era Uma Vez Um Sonho (Hillbilly Elegy, 2020). Comandado pelo já vencedor da premiação (por Uma Mente Brilhante) Ron Howard (que mundo é esse onde Ron Howard possui estatueta do Oscar e David Fincher não?), o drama adapta uma autobiografia lançando mão de duas grandiosas atrizes.

Na trama, J.D. Vance (Gabriel Basso) é um ex-fuzileiro naval do sul de Ohio e atual estudante de direito de Yale que está prestes a conquistar o emprego dos sonhos. Mas, por causa de uma crise familiar, é forçado a voltar à vida que tentava deixar para trás. Agora, ele precisará enfrentar a complexa dinâmica familiar, incluindo uma relação complicada com a mãe, Bev (Amy Adams), que luta contra um vício.

O grande lance dessa produção é mostrar como, às vezes, uma pessoa pode escapar de um destino predeterminado pelo seu contexto de escassez. Para isso, J. D. teve a regrada tutela de sua avó, a má influência da sua mãe viciada e uma boa dose de sorte. Tudo isso para poder dizer que ele escapou de um futuro problemático que o aguardava.

No entanto, isso não significa que ele seja um vencedor na vida. Há diversas questões não resolvidas sobre seu passado deixadas para trás, como se nunca tivessem existido ou pior: não precisassem de uma solução. O urgente retorno para sua terra natal justamente num momento crucial da sua carreira profissional é também a vontade do protagonista de fazer as pazes e poder amenizar todas as dificuldades pelas quais essa família passou. E não foram poucas.

O roteiro de Vanessa Taylor, que adapta a biografia escrita pelo próprio J. D. Vance, insere a questão geracional na história de um modo que torna o filme minimamente interessante, mostrando através de flashbacks como a mãe e avó do protagonista não tiveram tanta sorte em escapar do que o mundo estabeleceu como destino para elas. Algumas dessas cenas no passado são mal inseridas, mas a maioria delas funciona dentro do propósito do longa de Ron Howard.

Elenco de Oscar

Como Era Uma Vez Um Sonho é uma produção que visa a corrida do Oscar, vale elogiar o bom destaque dado a duas grandes atrizes que são Amy Adams e Glenn Close.

A primeira está transformada, num típico papel que a academia adora premiar. Se Amy Adams (A Chegada) irá vencer são outros quinhentos, mas que ela consegue dar qualidade à personagem, é algo evidente. No entanto, nota-se também que faltou algo, talvez maior tempo de tela com mais diálogos.

Mas quem rouba a cena mesmo é Glenn Close (A Esposa; Atração Fatal), que consegue com menos tempo destacar fortemente questões da sua personagem. A maquiagem e figurino que retratam uma mulher aposentada de classe média baixa salta aos olhos principalmente com ela, mesmo sendo um recurso bem usado em toda a produção. Curiosamente, tanto Adams quanto Close já receberam indicações ao Oscar, mas nunca foram premiadas.

Correndo por fora, Gabriel Basso consegue levar suas cenas dignamente na pele do protagonista. Presente em Super 8 (de Steven Spielberg), é um grande talento a ser observado. A versão mirim de J. D. Vance, vivida por Owen Asztalos, foi uma boa escolha que conseguiu manter a semelhança do personagem com a longa diferença de idade.

Divulgação: Netflix

Era Uma Vez um Sonho (americano)

Era Uma Vez Um Sonho também permite uma leitura da situação econômica dos EUA e como o capitalismo mudou, deixando de lado uma classe trabalhadora não escolarizada que se tornou ressentida (que eclodiu na eleição de Trump), ao passo que se reproduzia significativamente como podemos observar nas cenas onde J. D. volta para sua cidade de infância, ainda mais abarrotada de crianças e pessoas em geral pelos quintais das casas. É uma camada que ajuda a contextualizar e explicar muito sobre os personagens e seus dilemas.

Ao final, Ron Howard mostra que sua intenção nunca foi se aprofundar nas questões que ele jogou para o espectador, deixando um gosto raso de "a vida como ela é" e "toda família tem seus problemas". É como um episódio da série This is Us onde não choramos tanto assim. Não é o suficiente para ganhar um Oscar de Melhor Filme, tampouco Melhor Direção. Mas com a falta de lançamentos devido à pandemia pode ser que caia algum prêmio no colo.

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