Enola Holmes (Netflix) | Crítica

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Apesar de alguns problemas, Enola Holmes consegue extrair o melhor de Millie Bobby Brown e entregar uma aventura honesta e divertida

Ao longo de mais de 130 anos, Sherlock Holmes ainda é um dos personagens mais queridos da cultura pop. A criação máxima de Sir Arthur Conan Doyle já ganhou inúmeras versões para o cinema e TV, sendo interpretado por nomes como Robert Downey Jr. e Benedict Cumberbatch. No entanto, nada é tão tradicional que não possa ganhar contornos de novidade. Como por exemplo uma irmã mais nova do famoso detetive, tão esperta e brilhante quanto ele. Enola Holmes, novo longa original da Netflix, tenta trazer um ar jovial para esse universo, mesmo esbarrando em várias dificuldades.

Baseado no primeiro livro da série literária Os Mistérios de Enola Holmes, da autora Nancy Springer, o filme acompanha a jovem protagonista (Millie Bobby Brown) na busca por sua mãe desaparecida Eudoria (Helena Bonham Carter). Para isso, ela precisa lidar com os irmãos Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Claflin) e mostrar todas as habilidades adquiridas ao longo da curta vida. Na jornada, ela encontra o lorde Tewkesbury (Louis Partridge) e se envolve numa conspiração maior do que pode imaginar.

A direção de Harry Bradbeer (Fleabag, Killing Eve) sabe como misturar a atmosfera das clássicas histórias de Sherlock com a energia e a hiperatividade juvenil que a protagonista transmite. De fato, é um filme que possui um público alvo bastante definido e tenta dialogar com ele durante toda a projeção. Para isso, invoca clichês narrativos como quebra de quarta parede, flashbacks convenientes e montagens ágeis que explodem constantemente na tela. Tais muletas não são um problema tão grave, a questão é quando são utilizados de forma descontrolada, dando a impressão de que o longa é composto apenas desses elementos. Além de inflar a duração muito além do necessário.

O roteiro escrito por Jack Thorne (Extraordinário) opta por guiar Enola Holmes através de uma aventura com toques de amadurecimento e auto-descoberta. O que novamente combina com o público mais jovem, ávido por encontrar seu lugar no mundo. Contudo, acaba derrapando também na execução, nesse caso no didatismo exagerado. O texto toca em pontos importantes como igualdade de gêneros e independência, mas é irritantemente explicativo na hora de transmiti-los. Falta suavidade na abordagem, dando a impressão de que a juventude não é capaz de extrair pensamentos próprios sem ajuda.

Divulgação: Netflix

A presença dos irmãos mais velhos de Enola também não ajuda muito. Claro, funcionam como um ótimo chamariz, mas por várias vezes atrapalham a evolução natural da trama. Além da necessidade de estabelecer um elo familiar e representar a desconexão dos adultos com esse mundo mais juvenil, não existem muitos motivos para tanto destaque em tela. Henry Cavill atua como sempre faz, o que já não é surpreendente nessa altura do campeonato. Seu Sherlock é apenas um ponto de referência. Já Sam Claflin não tem muito o que fazer com sua versão estridente de Mycroft. Pelo menos a química com Millie funciona.

Por falar nela, a jovem atriz é o coração do longa. Tanto que é uma das produtoras do projeto. Sua atuação é cativante, enérgica e convincente. Tudo que funciona na película é por conta de seu talento e carisma, deixando bastante claro que ela é capaz de carregar um projeto assim nas costas. Quando o diretor abandona seus vícios e foca a câmera em Millie, as coisas fluem com mais naturalidade. É empolgante saber que ela pode entregar mais do que seu limitado papel em Stranger Things.

Apesar das falhas impostas pelo roteiro e pela direção, Enola Holmes é um filme divertido que sabe extrair o melhor de sua talentosa protagonista. Com mensagens importantes, pode agradar aqueles que buscam um passatempo mais leve e tem curiosidade pelo universo de Sherlock. Exigir ainda mais do projeto não seria muito justo.