Lucas Muniz

31 out, 2020

Filmes

Uma singular experiência sensorial que sofre com a mão do seu criador

Não é de agora que Christopher Nolan gosta de aventuras que envolvam o tempo. Seja em viagens propriamente ditas (Interestelar) ou em tempos diferentes de acontecimentos, brincando com a narrativa (Memento, Dunkirk), além de sempre mostrar interesse e paixão por explorar conceitos que envolvam o espaço/tempo num todo, como vemos em “A Origem”. Dessa vez, em Tenet, o diretor continua a trabalhar com essas ideias, mas numa história bem mais policial, ao melhor estilo James Bond, e a impressionar com cenas estonteantes.

Escrito e dirigido por Nolan, temos aqui uma trama de proporções mundiais. O Protagonista — como é colocado o nome do protagonista de fato —, personagem interpretado pelo carismático John David Washington, é um agente da CIA que acaba indo trabalhar para uma organização secreta, e a única informação que existe é uma palavra/senha TENET. Incumbido de uma perigosa e estranha missão, O Protagonista tem que impedir Andrei Sator (Kenneth Branagh), um oligarca russo que está para iniciar a 3ª Guerra Mundial através de uma “arma” temporal que conseguiu através de um meio de comunicação com o futuro, e que possui a capacidade de inverter o tempo.

O longa já se inicia de forma bem enérgica, com uma grande sequência de ação em um teatro de ópera. A partir desse momento, o filme já define bem o seu ritmo e de como serão as futuras cenas de ação durante os 150 minutos de projeção. Com um primeiro ato bastante confuso — fato curioso, tendo em vista que o filme é bastante explicativo —, Nolan não perde tempo com muito desenvolvimento de personagens, tampouco se importa em apresentá-los; é objetivo no desenrolar da trama em si, mas não profundamente com as figuras que a compõe, fato que pode ser reiterado pelo nome do personagem principal. Como já dito acima, o filme leva muito aspectos dos filmes clássicos de espionagem, e óbvio que é impossível não lembrar de 007, sendo esse o mais mainstream do gênero. Endossado pelos arquétipos desses indivíduos já estabelecidos por esse estilo de filme, ele realmente despreza qualquer aprofundamento, mas não esquecendo de tornar certos personagens carismáticos, como é o exemplo de Neil (Robert Pattinson).

Christopher Nolan mantém diversos aspectos de sua cinematografia, aspectos esses que já são considerados assinaturas do diretor. Como por exemplo o seu fascínio pela urbanização: prédios, pistas, cidades, pessoas passando na rua, são elementos que constantemente são utilizados por ele. Em Tenet, isso não é diferente. Diversos diálogos acontecem no meio de um centro comercial, ou de uma rua qualquer, ou de frente a algum evento social acontecendo, ou cenas de ação junto com perseguições. Fato interessante de ser observado justo por parte do tema tratado ser o tempo, o espectador sempre é confrontado com o parâmetro da normalidade e do curso natural das coisas, assim gerando um impacto considerável e uma experiência bastante recompensadora nos momentos em que existe o lapso temporal.

Outra característica marcante é a sua preferência por fazer cenas grandiosas com efeitos práticos. É fácil acreditar e se sentir imerso na experiência cinematográfica diante desse recurso. Existem dois momentos em Tenet que isso acontece, e as duas são em função de conseguir algo importante que os personagens buscam. Lembrando muito filmes como “Batman: O Cavaleiro das Trevas” e “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, ambos de sua autoria. E destaque para a cena do aeroporto (não é spoiler se está no trailer). É empolgante, grandiosa e importante para o progresso do filme.

Mas não só cenas bonitas compõem um filme, principalmente um com diversos conceitos e bastante coisa acontecendo em tela. É preciso uma montagem hábil e que mantenha o ritmo da história. Aqui temos mais uma das montagens que é característica de Nolan: ele brinca mais uma vez com a narrativa das sequências, e uma vez que um plano de ação está acontecendo, os detalhes desse mesmo plano estão sendo discutidos pelos personagens em outro lugar em outro tempo. Isso sempre foi positivo na mão do diretor, pois acrescenta uma dinâmica no filme que é necessária e se soma ao ritmo e do contexto da ação, sempre deixando as sequências mais objetivas e emocionantes.

Em contrapartida, sua mão pesa muito em outro âmbito desse mesmo aspecto. Vemos O Protagonista ir de um país a outro num simples corte de cenas, e quase não conseguimos nos habituar com os cenários. Isso a priori não é um problema, entretanto, é algo que é feito em demasia durante o filme. Parecem ser planos bonitos por planos bonitos, e resumidos a um diálogo pontual.

O elenco tem peso e nome, mas é um roteiro bastante impessoal, e você não conhece realmente os personagens a ponto de se importar muito com eles, salvo Neil e Katherine (Elizabeth Debicki). Neil por ser extremamente carismático, e com um certo ar de mistério acrescentando um pouco de humor sarcástico; e Katherine, que é a única que possui um background dentro do roteiro e plano de fundo, esse que é grande parte da ação motivadora e ligada diretamente com Sator, por ser sua esposa com quem tem um filho. O Protagonista realmente ganha a tela por sua presença em cena e também por seu carisma, e ele junto de Neil são parecidos nos aspectos de personalidade. A diferença entre ambos é que Protagonista é mais esquentado, porém a dinâmica entre eles se completa e os dois funcionam muito bem em cena por esse equilíbrio. O elenco merece destaque também pelo fato de que precisaram aprender a falar ao contrário para algumas cenas, e lutar também de forma reversa, mérito gigantesco principalmente para Kenneth Branagh que é norte-irlandês e teve que conseguir tal proeza de falar reverso e ainda com sotaque russo.

A fotografia de Hoyte Van Hoytema, que vem mantendo a parceria com Christopher Nolan desde “Interestelar”, tem planos evocadores, principalmente nos momentos abertos, onde precisamos observar a cena com calma ou a ação é avassaladora onde tudo acontece muito rápido. Destaque para a sequência de ação do ato final e para a sequência do aeroporto. Todavia, o diretor ainda possui um certo déficit no que diz respeito a cenas de luta mais próximas e opta por planos muito fechados, cortes frenéticos, e a maldita câmera tremida. É quase que impossível entender como os personagens estão lutando, o espectador só aceita que existe uma luta ali e pronto. No quesito de cores, é curioso como eles usam os vermelhos e azuis para sinalizar os tempos: vermelhos para o tempo normal e azuis para o tempo reverso. Porém, no quis diz respeito a colorização do filme, Nolan pesa sua mão nas cores menos vibrantes e mais acinzentadas e o filme é muito frio, salvo uma cena de ação ou outra.

A trilha sonora, que ficou a cargo de Ludwig Göransson (Pantera Negra, Creed), evoca diversos momentos do filme. É uma trilha pulsante, cadenciada e fazendo jus ao legado do “BOOOOM!” que é também assinatura do diretor. Na verdade, tudo que diz respeito ao som em Tenet é digno de destacar: sua edição, o design e trilha, como já mencionado. Logo na primeira sequência, da ópera, a projeção já mostra a que veio. É pesado, quase como se você estivesse presente vivenciando a coisa de perto e Christopher Nolan mais uma vez acerta em se preocupar com o cinema como uma experiência além do visual. O filme foi todo filmado em IMAX e narrativamente falando, isso não influencia em nada, porém, juntando com toda a questão sonora, se torna uma experiência singular na sala de cinema. Infelizmente, quem for assistir Tenet em casa, vai perder bastante parte da imersão do filme (respeite a quarentena, Nolan foi muito imprudente, para não dizer ao contrário, querendo enfiar goela abaixo esse filme nas salas).

Tenet apesar de ser bastante divertido e empolgante, sofre com seu criador em vários diálogos expositivos, e isso é o tempo inteiro. Não existe uma conversa ordinária durante a história, todo momento é emplacado com algum conceito sobre física avançada, ou física básica (momentos estes que é quase que xingando a inteligência do espectador), e a sensação é de sobrecarga cerebral. Todo instante aparece um conceito novo ou uma conversa sobre dicotomias. Nolan contratou um físico, assim como fez em Interestelar, para ajudar a desenvolver os conceitos da história, entretanto, aparenta que sempre quer dar carteirada sobre como seu roteiro é inteligente e como ele é super complicado.

Os efeitos especiais e visuais são fantásticos, destacando para as cenas onde o tempo está reverso. Sinceramente, é excepcional como as duas coisas coexistem na tela: personagens em um tempo, e o cenário retrocedendo a todo instante. É bastante inventivo como isso aparece em tela.

Tenet é um filme empolgante, com uma história já vista em filmes de espionagem. É uma experiência sensorial singular, mas peca em ficar o tempo inteiro se explicando e em tentar ser mega intelectual, com personagens superficiais. Todavia, ganha em seu conceito inventivo e com sequências sólidas e críveis.

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