Crítica | Strong Island: a dor da impunidade

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Não é novidade para ninguém que os EUA enfrenta um grava problema envolvendo a violência contra, principalmente, jovens negros. Casos se espalham por canais de TV diariamente, alguns até ganhando contorno mundial. Mas essa é a mínima fração da informação que chega ao público. Muitos desses crimes ocorrem por trás dos holofotes, sem nunca ganharem a devida atenção. E isso já é algo enraizado na história. Strong Island trata, justamente, de um desses casos. Sobre como a impunidade e o preconceito destruíram os corações de uma família.

O longa dirigido e co-estrelado por Yance Ford mergulha nos mistérios que cercam o assassinato de seu irmão mais velho, William Ford. Mas não espere um intrínseco estudo sobre o caso, já que Yance utiliza dessa premissa para entregar um produto completamente fora do comum. Sim, existe a indignação por ninguém ter sido preso, além da forma como a justiça lidou com tudo isso. Mas o foco aqui é destrinchar o ser humano e as consequências do luto, da indignação e da culpa.

A ideia da diretora é humanizar a vítima, por isso entrevista sua mãe, irmã e os melhores amigos do falecido irmão. Strong Island é uma forma de externar sentimentos que provavelmente apenas os mais próximos da família conheciam. Dessa forma, fica fácil de criar um laço de empatia com o público. Não como algo manipulativo, mas essencial na hora de contar a história. A forma como Yance trata do racismo, colocando uma lupa sobre um caso específico, é magistral. Ao abandonar a tendência de passar duas horas abrindo pastas de arquivos, ela trata o problema de forma real. O que fica claro durante os emocionantes depoimentos de sua mãe ou quando relata aspectos da relação com o irmão. Focar no individuo para compreender o plano geral é um exercício essencial.

Yance Ford durante uma entrevista de Strong Island. Divulgação: Netflix.

É difícil não lembrar de outros excelentes documentários, como A 13ª Emenda. Mas embarcando em uma analogia, é como se Strong Island analisasse a árvore, enquanto a obra de Ava DuVernay foca na floresta. Cada um perfeito em sua proposta. Apesar de tudo que foi dito, Yance ainda entra em contato com os envolvidos na investigação do caso. Não como uma busca desenfreada por respostas, mas como uma maneira de finalmente tentar compreender o que deu errado. Mesmo que já tenham se passado mais de 20 anos. E esses são alguns dos momentos mais fortes de seu longa.

Em partes, Strong Island é também um trabalho catártico para Yance Ford, que se auto-entrevista em alguns momentos. Para isso, ela abusa de close-ups e quebras da quarta parede, como se colocasse o dedo na nossa cara, desferindo até mesmo alguns socos. Além da dor, ela carrega um certo grau de culpa pela tragédia que acometeu sua família. Algo que não esconde, já que em nenhum momento deseja pintar uma imagem sagrada do irmão. Por isso, o documentário parece uma forma de “encerrar” o caso, como se remoer tamanho sofrimento já não fosse mais necessário.

Strong Island é forte, cru e propositalmente incômodo em algumas partes. Mas consegue fisgar o espectador de uma forma natural, tanto pelo talento de sua diretora quanto pela importância da história que é contada. Exclusivo no catálogo da Netflix, o documentário também foi indicado ao Oscar desse ano.