Charles Luis Castro

6 mar, 2021

Filmes

Mantendo a onda de inovação das últimas animações, Raya e o Último Dragão é um belo exemplo do futuro promissor da Disney

É interessante acompanhar as mudanças pelas quais as animações da Disney passaram ao decorrer dos anos. Claro que os clássicos estarão sempre guardados em nossos corações, mas é inegável a onda de criatividade e ousadia que tomou conta dos projetos recentes, especialmente de tudo que veio depois de Frozen. Uma nova forma de trabalhar com conceitos de fantasia, atrativa tanto para crianças quanto para o público mais crescido. Raya e o Último Dragão, novo longa animado dessa fase, aproveita o terreno construído por seus antecessores para se destacar como uma das grandes produções desse início de ano. Deixando de lados ideais amorosos para explorar conceitos de união e bem-estar coletivo.

No passado, humanos e dragões viviam em paz e harmonia no reino de Kumandra. No entanto, seres malignos chamados de Drunns surgiram e começaram a transformar todos em pedra. Em um sacrifício derradeiro, Sisu (Awkwafina) usou o poder da Jóia do Dragão para derrotar os inimigos. Indo na contramão do cenário vigente, a raça humana entrou em disputa pela posse do artefato mágico. Logo Kumandra se dividiu em reinos diferentes que almejam tomar o controle do último resquício de magia do mundo. É no presente que Raya (Kelly Marie Tran) vive, no reino de Coração. Quando seu pai Benja (Daniel Dae Kim), idealista que acredita na união entre os povos, convida os líderes rivais para um jantar, as coisas saem do controle e a Jóia do Dragão é destruída. O antigo mal dos Drunns retorna e agora Raya precisa salvar o mundo.

A premissa fantasiosa engana aqueles que esperam mais um exemplar tradicionalista da Disney. O principal ponto de rompimento dessa impressão está na motivação inicial da protagonista. Raya viaja pelo mundo em busca das partes da jóia não em nome do bem comum, mas para salvar seu pai. Um desejo individualista que gera uma antipatia momentânea contra a princesa. Algo que se dissipa ao compreendermos os motivos que a levaram a não confiar mais nas pessoas. Logo, a procura pelo objeto é usada como pano de fundo para que Raya reencontre seu lado bondoso e a crença no melhor do ser humano. A dualidade de sua relação com Sisu funciona justamente pelos pontos de vista conflitantes. O dragão representa a inocência e a imaturidade, confiando até demais nas pessoas. Mas é justamente sua esperança na união que vai quebrando as barreiras emocionais da protagonista.

Outro ponto de quebra de conceitos está na maneira como Raya e o Último Dragão investe muito mais nas cenas de ação e nas intrigas políticas, deixando de lado as tradicionais passagens musicais. Que verdade seja dita, não combinariam com o clima estabelecido pela narrativa. Por outro lado, a qualidade técnica presente nos momentos onde a adrenalina toma conta é de saltar os olhos. A fluidez dos movimentos na animação faz de cada combate um show. Assim como o cuidado estético na hora de diferenciar cada um dos reinos, com características que os tornam únicos.

Sendo uma princesa guerreira extremamente habilidosa e com um dragão ao seu lado, Raya não encara dificuldades para completar os objetivos. Dessa forma, o que prende a emoção do espectador até o final? Justamente a forma como sua jornada de reconciliação com seus semelhantes é trabalhada. E claro, a presença de bons personagens secundários. Os confrontos morais da protagonista e o pessimismo que toma conta do mundo fazem com que os momentos de tensão tenham muito mais peso. O senso de urgência da trama é bastante palpável, funcionando por toda duração do longa. Além de belo, Raya e o Último Dragão é emocionante.

É interessante notar a maneira escolhida pelo roteiro para lidar com o mal ao longo do filme. Os Drunns não possuem nenhum desenvolvimento, apesar do tom ameaçador bem estabelecido. A que mais se aproxima de uma antagonista é Namaari (Gemma Chan), funcionando muitas vezes como um reflexo distorcido de Raya. Ambas possuem seus próprios objetivos e vivem por eles, mas o grande problema está justamente na ganância da raça humana. Isso é levado para a resolução da problemática, também ancorada nos conceitos de união e confiança.

Seguindo o exemplo de Moana, Raya e o Último Dragão garante méritos ao valorizar e retratar uma cultura específica de maneira respeitosa, nesse caso, o sudeste asiático. E mais do que isso, mostra que existem muitas histórias a serem contadas em mercados com pouco espaço. Bem melhor do que investir tempo e dinheiro em live action sem alma. E mesmo com tantas inovações, ainda há espaço para uma mensagem bonita e inspiradora, da forma que a Disney sabe fazer de melhor.

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