Charles Luis Castro

29 dez, 2020

Filmes

Qualidade técnica e boa atuação de George Clooney não salvam o filme dos deslizes narrativos

Não é novidade para ninguém que as previsões de futuro para o nosso planeta são extremamente pessimistas. Algo que Hollywood gosta de trabalhar em sua longa lista de filmes sobre catástrofes, geralmente tendo como estopim a maneira com que lidamos com os recursos naturais da Terra. A saída, na maioria dos casos, está em vasculhar o espaço na busca por algum tipo de esperança. O Céu da Meia-Noite, novo longa da Netflix, faz parte desse tipo de produção. E mesmo que procure oferecer uma nova perspectiva, acaba esbarrando nos clichês narrativos tão conhecidos.

Baseada no livro Good Morning Midnight de Lily Brooks-Dalton, a trama ambientada num futuro próximo é dividida em dois núcleos: na Terra, acompanhamos o solitário cientista Augustine (George Clooney) que vive isolado em um observatório no Ártico. Após um desastre climático tornar o planeta inabitável, ele passa a procurar uma forma de se comunicar com os astronautas que partiram em busca de um futuro para a humanidade. Esse segundo núcleo habita a nave espacial Æther, que estava na lua de Júpiter batizada de K-23. É aí que conhecemos Sully (Felicity Jones), Adewole (David Oyelowo), Maya (Tiffany Boone), Sanchez (Demián Bichir) e Mitchell (Kyle Chandler). O principal problema de O Céu da Meia-Noite está na forma como equilibra essas duas vertentes, não conseguindo empregar naturalidade na transição e, principalmente, na união dos arcos.

George Clooney, agora na figura de diretor, tem melhor desempenho quando explora a solidão e a melancolia de seu personagem. A utilização de flashbacks ajuda a estabelecer a mudança de perspectiva ao longo de sua carreira, passando de um homem ambicioso e esperançoso para alguém de olhar vazio. A fotografia de Martin Ruhe faz das planícies geladas um belo cenário para a contemplação de Augustine, constantemente questionando nossa condição como seres humanos. Fica um sentimento de que o filme encontraria melhor sorte se optasse por desenvolver mais esse núcleo.

Mas quando o foco passa para a nave espacial, O Céu da Meia-Noite perde bastante força narrativa. Clooney não exige muito dos atores, que acabam entregando atuações protocolares. O roteiro de Mark L. Smith ajuda a estabelecer um background satisfatório para os tripulantes, mesmo não sendo suficiente para criar uma conexão profunda com o espectador. Inevitavelmente, os clichês dos perigos espaciais são utilizados. Entre eles, mudança de curso, colisão com detritos e a necessidade de realizar reparos externos na nave. Cenas bem feitas, é preciso salientar, mas que existem muito mais para preencher os minutos de duração.

A proximidade temática com o sofrimento de Augustine custa a ser explorada, surgindo apenas no terceiro ato. Justamente quando a constante transição de núcleos já não é mais tão empolgante. Por sinal, o personagem de Clooney também precisa enfrentar as desventuras protocolares de quem se arrisca pelo gelo. Embora gere mais momentos para apreciar a beleza do filme, algo capaz de compensar um certo marasmo presente no texto.

Na tentativa de fazer dois filmes em um, George Clooney acaba comprometendo a história como um todo. Apesar da qualidade técnica e de uma atuação delicada do diretor/ator, O Céu da Meia-Noite não consegue desenvolver todo seu potencial. Definitivamente não foi o ano das produções espaciais da Netflix.

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