Charles Luis Castro

20 dez, 2020

Filmes

Chadwick Boseman e Viola Davis brilham num filme repleto de diálogos poderosos

Chadwick Boseman foi um talento que nos deixou cedo demais. Porém, em sua curta lista de trabalhos, é possível enxergar o tamanho de sua versatilidade e da entrega em cada papel. Seja interpretando o lendário jogador de beisebol Jack Robinson ou com o manto do Pantera Negra, o ator faz de cada aparição em cena um momento marcante. Ao saber que A Voz Suprema do Blues, novo longa lançado pela Netflix, foi seu último trabalho antes de falecer, tudo ganha um contorno mais emocionante. E mesmo desejando ver mais de sua atuação, é poético que sua última dança tenha sido embalada pelas notas do blues.

Adaptando a peça homônima escrita pelo premiado dramaturgo August Wilson, o longa é ambientado na ensolarada Chicago de 1927, com praticamente toda a trama ocorrendo dentro de um abafado estúdio de música. É nesse espaço quente e pequeno que Ma Rainey (Viola Davis), conhecida como Mãe do Blues, e sua banda estão reunidos para gravarem um novo disco. O que parecia algo simples ganha contornos de tensão quando a estrela bate de frente com o trompetista Levee (Boseman) e com os donos do estabelecimento. A Voz Suprema do Blues é, em sua essência, um embate de duas grandes forças. Mas também um breve estudo da condição social dos africano-americanos no período, com um texto bastante potente e repleto de camadas.

A direção de George C. Wolfe consegue vencer as dificuldades de levar uma peça de teatro para o formato de longa. Embora respeitando a origem do material, Wolfe torna tudo mais dinâmico com sua câmera passeando pelos cenários apertados, acompanhando os atores enquanto falam, tocam e dançam. Essa fluidez impede que o espectador crie a sensação de que "nada está acontecendo". Contudo, as tomadas externas - que funcionam com um respiro dentro da história - quebram a imersão quando utilizadas.

O roteiro escrito por Ruben Santiago-Hudson é pautado na qualidade dos diálogos, que explodem na tela praticamente no mesmo ritmo que as notas são tocadas pelos músicos. Trancados numa sala quente, Levee, Cutler (Colman Domingo), Toledo (Glynn Turman) e Slow Drag (Michael Potts) divagam sobre a vida, sonhos, medo, arrependimentos, racismo, religião e toda a sorte de assuntos. Em outro cômodo, Ma Rainey fala sobre poder, talento e como a figura da mulher negra é vista pela sociedade. Dessa forma, todo o elenco tem espaço para algum tipo de destaque.

Falar sobre o talento de Viola Davis chega a ser redundante. Por baixo de uma maquiagem pesada e roupas extravagantes, sua presença em tela é hipnótica, tornando bastante crível que sua personagem bata de frente com homens brancos em um período extremamente racista. Ela confere a imponência necessária a uma das figuras mais importantes da cultura negra dos EUA, responsável por popularizar o blues através das gerações. Em um ano tão incomum para o cinema, não custa imaginar uma nova indicação ao Oscar.

Apesar de A Voz Suprema do Blues girar em torno da personagem de Viola, é Chadwick Boseman quem consegue brilhar intensamente. Debilitado pelo tratamento contra o câncer que tirou sua vida, ele entrega uma das interpretações mais enérgicas de sua carreira. Com uma aura trágica, Levee canta, toca, chora, sonha e sempre busca ter a última palavra sobre tudo. A doação de Boseman ao personagem é essencial para criar um vínculo com o espectador, especialmente na reta final do longa. Novamente, não é loucura sonhar com sua indicação póstuma no Oscar. Infelizmente, ele e Viola têm poucos momentos juntos em tela.

Com um texto direto e necessário, alinhado ao poder de suas grandes estrelas em cena, A Voz Suprema do Blues é um dos grandes filmes lançados esse ano. E funciona como uma despedida digna de Chadwick Boseman. Apesar de sua curta passagem nesse mundo, seu nome está marcado de vez na história.

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