Evelyn Batista Silva

4 jan, 2022

Filmes

Chamando muita atenção, o mais novo longa original da Netflix Chamada Explosiva é uma mistura de roteiro bom com uma execução que poderia ser muito melhor se tivessem acertado na dosagem de drama e na retirada de cenas placebo.

Em Chamada Explosiva, o apresentador de rádio Arjun Pathak é surpreendido pela ligação de um homem que diz que vai explodir uma ponte. Duvidando dele, o apresentador desafia o ouvinte e continua com a programação normal até ouvir uma explosão. Pathak então vê naquele momento um furo de reportagem e a oportunidade que precisava para voltar a ter tudo o que tinha antes: uma carreira brilhante e sua esposa, a repórter de campo Saumya Mehra Pathak.

Sem alertar a polícia, Pathak faz um acordo com a chefe para voltar a apresentar o noticiário principal e entra ao vivo com o homem que diz ser o responsável pela bomba. O âncora, que está mais preocupado com a reputação e a própria imagem, não faz ideia que, com aquele acordo, ele estava assinando para entrar em um caminho sem volta.

O filme apresenta um ritmo caótico, com uma história envolvente e desesperadora. Mas o roteiro pecou em detalhes, por vezes exagerando, tentando colocar o público do lado do âncora, que está emocionalmente abalado com o pedido de divórcio. O problema que temos nessa narrativa é que esse abalo simplesmente some da tela e o que aparece é um personagem mesquinho. Talvez por ter sido gravado apenas em 10 dias - totalmente fora da previsão habitual de 45 a 50 dias de gravação -, ou talvez o roteiro tenha sido o problema, mas as falas parecem corridas e com sequências forçadas. Algumas cenas parecem ter sido colocadas só para preencher espaço de tela, com um esvaziamento de significado real para o longa.

O que muitos não devem saber é que a história já foi contada em 2013 no filme coreano The Terror Live, estrelado por Ha Jeong Woo, Choi Jin Ho e Lee Kyeong Yeong. O remake da Netflix segue um ritmo dramático que mostra de maneira desajeitada o orgulho do apresentador e também do governo, que não conseguem - ou não querem - demonstrar que estão errados e se recusam a pedir desculpas por seus erros.

Spoilers de Chamada Explosiva adiante

A sequência inicial, que mostra um casal completamente feliz com sua relação, e que não existe no filme de 2013, foi colocada para dar um ar mais romântico e trágico aos acontecimentos, já quando o atentado está chegando ao final. O ar sentimental que o personagem principal traz é muitas vezes totalmente esquecido, e o que vemos é alguém que apenas se preocupa com sua imagem e o seu próprio bem-estar. Em The Terror Live, também temos um personagem egoísta, mas aqui o romance não é forçado. Na verdade, ele quase não existe, já que os personagens estão mais preocupados em tentar se salvar ou salvar outros das ameaças do terrorista.

Quando chegamos ao final, talvez na cena mais gráfica dos filmes, onde o apresentador está desesperado sem saber como avisar sobre a bomba implantada nos pontos, o remake de maneira alguma honra o desespero passado pela tela como o original. Nessa nova versão, a morte do deputado não evoca o desespero que deveria ser passado, e o que se segue se mostra absurdo. Depois que a bomba do deputado explode, é necessário apenas a repetição de uma frase de efeito, para que o apresentador volte a apresentar o programa, e rapidamente, uma situação tensa e traumatizante é deixada de lado. No filme original, podemos ver que o personagem permanece no local e continua a transmissão, mas ele está visivelmente muito abalado e todo acontecimento dali em diante vai apenas somando e deixando-o mais tenso.

A escolha de fazer a produtora trair Arjun e encenar como se ele fosse cúmplice do terrorista é um outro ponto a se mencionar. Essa decisão foi falha, mas entendo que foi para dar mais agonia a um personagem já muito surrado. O que também deu mais um motivo para que, nos últimos momentos, Arjun escolhesse se vingar do canal para o qual trabalha e decida explodir o prédio.

Em The Terror Live, vemos que existe uma real conexão entre o âncora e o homem da bomba, já que o âncora fica enraivecido com todo o jogo que o governo fez até então, e como a decisão final é de descontentamento e raiva, enquanto no remake vemos apenas um homem que não tem mais nada a perder dando o seu último passo.

Muitas são as diferenças entre os dois filmes, mas a maior delas, para quem assistiu a ambos, provavelmente é o sentimento de sensibilidade pelos acontecimentos da trama em apenas um dos longas.

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