Charles Luis Castro

18 ago, 2021

Filmes

Explorando as dificuldades do homem comum diante de algo absurdo, Beckett se apresenta como um thriller de conspiração mediano.

Um homem comum que, de repente, se vê diante de uma situação complexa no qual sua vida corre perigo. Sem preparo e nenhuma noção do que está acontecendo, ele precisa fugir ao mesmo tempo que busca respostas para o seu calvário. Essa não é uma premissa tão inovadora em Hollywood, mas que costuma render alguns filmes interessantes de vez em quando. Alfred Hitchcock já bebeu dessa fonte em Intriga Internacional. Isso significa então que Beckett, novo lançamento da Netflix, é digno de uma obra do mestre do suspense? Não mesmo, mas comparações são sempre inevitáveis.

Beckett (John David Washington) e sua namorada April (Alicia Vikander) estão de férias na Grécia, no mesmo período em que o país passa por um conturbado cenário político. Após dormir no volante e causar um acidente, ele é hospitalizado e ela é dada como morta. Sozinho em um local em que não domina o idioma, o protagonista começa a ser perseguido pela polícia e precisa lutar para sobreviver. Esse cenário absurdo soa como uma homenagem ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett, conhecido por trabalhar o exagero em suas peças. Nessa linha de argumento, pessoas são colocadas em situações que estão além de suas habilidades e que não possuem uma solução aparente que não seja algo trágico. É como a falta de lógica na existência e a busca por algum tipo de clareza.

No entanto, a direção do italiano Ferdinando Cito Filomarino é bastante inconstante. Apesar da premissa simples conseguir engajar o espectador por quase duas horas, o diretor não consegue manter a tensão no ar durante todo esse período. Ao mesmo tempo em que desenvolve o mistério por trás da situação de Beckett, Ferdinando também lida com a culpa do protagonista e com o efervescente momento social e político grego, com esse último aspecto tendo uma desenvolvimento extremamente raso. O que não condiz com a importância que ele ganha ao longo da trama.

O principal charme de Beckett está na desconstrução de seu protagonista. John David Washington possui todos os requisitos de um herói de ação, como deixou claro em Tenet. Aqui, sua fisicalidade é explorada de outra forma. O personagem está sempre se machucando, pulando, caindo e lutando de forma desengonçada. Essa ausência de sutileza e habilidade é essencial para fixar a mensagem do homem comum diante do absurdo. Nesse aspecto, as cenas de ação são eficientes. Existe um clima paranoico ao redor de Beckett, que só aumenta à medida em que mais pessoas surgem para matá-lo. Destaque também para a trilha sonora de Ryuichi Sakamoto, que parte do simples para criar tensão. Sopro, cordas e percussão permeiam as situações exageradas vividas pelo personagem principal.

Nas mãos de um diretor mais experiente, Beckett poderia ter sido um ótimo thriller embalado por conspiração. Infelizmente, apesar de boas ideias, o longo nunca passa da superficialidade. Falta o elemento de tensão que nos deixa na ponta do sofá, apreensivos pelo próximo passo. Fica apenas a certeza de que, nos absurdos da vida, a realidade pode ser decepcionante.

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