É possível ser um pacifista em meio à guerra? São os ideais que definem um ser humano? Essas são algumas questões levantadas em Até o Último Homem (Hacksaw Ridge no original), novo trabalho de Mel Gibson estrelado por Andrew Garfield. O que temos aqui é um filme que mistura bem conceitos tão antagônicos, mas que sabe muito bem qual o lado certo para depositar suas doses cavalares de entretenimento.

A história acompanha Desmond T. Doss (Garfield), um médico do exército que, durante a Segunda Guerra Mundial, se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. Porém, apesar de sua decisão polêmica, ele consegue salvar mais de 75 homens durante a sangrenta Batalha de Okinawa. Desse modo, Doss tornou-se o primeiro opositor consciente (pessoa que segue princípios religiosos, morais ou éticos de sua consciência, incompatíveis com o serviço militar) a receber a Medalha de Honra do Congresso.

A primeira metade de Até o Último Homem é completamente utilizada para construir a personalidade e os dramas de Doss, apresentando os momentos que moldaram seus princípios éticos e religiosos. Existe espaço para o desenvolvimento da mensagem pacifista, sem o cinismo que provavelmente estaria presente em outras produções do gênero.

Porém, falta coragem – ou qualidade – ao roteiro na hora de apresentar a colisão entre os dois mundos. Momentos recheados de clichês são invocados, construindo situações rasas. Durante a batalha, em nenhum momento os ideais do protagonista são realmente testados.

Mas é na segunda metade que Até o Último Homem mostra todo o seu poder. Ou, trocando em miúdos, quando Mel Gibson assume o comando da situação. A Batalha de Okinawa foi uma das mais selvagens da 2ª Guerra Mundial, com mais de 20.000 mortos e 55.000 feridos apenas do lado dos EUA. E o diretor sabe como tirar proveito disso. Logo na primeira troca de tiros, você percebe que está diante de um retrato do inferno.

É tudo muito sangrento e sujo. Cabeças perfuradas por tiros, explosões, granadas voando de um lado para o outro, membros decepados, vísceras expostas, soldados queimados e se esfaqueando na ausência de balas. Existem tomadas mais abertas, onde o espectador pode analisar o conflito em toda a sua grandeza. Mas também existem cenas mais intimistas, onde é construída a tensão de uma batalha desse porte. Apesar de alguns efeitos falhos, podemos presenciar algumas das melhores sequências de ação de filmes do gênero.

Nas atuações, Andrew Garfield entrega um personagem humano, que em nenhum momento aceita a imagem de santo. Algo que o próprio Desmond Doss nunca aceitou durante a vida. É um trabalho muito bem executado diante da proposta do filme, mas que poderia atingir outro nível sem as limitações do roteiro. O corpo de coadjuvantes também funciona, em especial Teresa Palmer, Vince Vaughn e Hugo Weaving.

Apesar de algumas “liberdades poéticas” (o documentário The Conscientious Objector é bem mais preciso), Até o Último Homem é uma produção densa, que encontra seu valor nas grandiosas cenas de guerra mas apresenta fragilidades na hora de contar sua história.