Charles Luis Castro

18 nov, 2016

Filmes

Eu, você e milhões de pessoas crescemos assistindo aos filmes da saga Harry Potter. Foram anos amadurecendo junto com aqueles personagens, criando laços de amizade e até de ódio. Mas um dia tudo chegou ao fim, pelo menos na tela do cinema. Um vazio que parecia impossível de ser preenchido, até que Animais Fantásticos e Onde Habitam estreou. Com uma difícil missão nas costas, mas tirando de letra todo o desafio.

Não é apenas um filme, mas o começo da expansão de um universo mágico com um potencial imenso. Ao mesmo tempo que traz novidades, também conversa com aquele fã antigo, que coleciona todos os itens possíveis da franquia. Mas com uma atualização importante no diálogo, tocando em temas atuais como racismo, xenofobismo, machismo etc. Tudo revestido por uma camada de magia, mas que não escapa de olhos mais atentos.

A escolha de ambientar esse primeiro filme em uma Nova York dos anos 20 foi a mais certa possível. Já que o roteiro - escrito por J.K. Rowling - consegue mesclar muito bem período histórico do país com o mundo dos bruxos. Existe uma tensão no ar, com a real possibilidade dos No-Majes descobrirem que estão cercados por algo incrível, mas que não conseguem compreender totalmente.

Também é importante mostrar a ação acontecendo longe dos muros de uma escola, no mundo real. Onde as consequências de atos impensados não somem ao fim das aulas. Faz parte do processo de amadurecimento da abordagem. Papel que Animais Fantásticos e Onde Habitam desempenha com louvor.

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O roteiro escrito por J.K. Rowling é o grande trunfo do filme. Ela sabe como desenvolver seus personagens, além de criar uma história coesa, apesar dos vários núcleos. A jornada de Newt Scamander atrás de suas criaturas mágicas consegue se desenrolar ao lado da ameaça de Grindelwald, que será explorada no decorrer dos próximos filmes.

Isso gera um contraste entre o fascínio da mágica e da natureza de Newt com a realidade cruel do mundo. Existem elementos sombrios no filme, sempre intercalados com momentos de bom humor. Mas ambas as partes funcionam muito bem, sendo mais um exemplo da dinâmica do roteiro.

Nas atuações, Eddie Redmayne rouba a cena. Ele encontra aqui o melhor espaço para seus trejeitos, dando um ar de leveza para o protagonista. Apesar da primeira impressão, Newt possui um profundo conhecimento do mundo bruxo, o que não o impede de lançar seu olhar de fascínio sobre cada nova situação. É a melhor representação de um fã apaixonado que o filme poderia entregar.

Jacob (Dan Fogler), por outro lado, é a visão dos trouxas ou no-majes. Apesar de se apresentar como o alívio cômico, ele tem espaço para crescer. As situações engraçadas funcionam, mas Jacob não vira o personagem ridículo. Além de desenvolver uma amizade bonita com Newt. Não existe forma melhor de mostrar que até quem não liga muito para Harry Potter, pode se divertir com esse mundo.

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Na verdade, todo o elenco está muito bem. Até mesmo Colin Farrell, que parece ter entendido a abordagem do filme e abraçou a causa. O personagem de Ezra Miller, que esteve apagado dos materiais de divulgação, também ganha destaque. Também tem a polêmica participação de Johnny Depp como o vilão Grindelwald, em uma cena muito bem escrita e até inesperada. Mas ainda é pouco para avaliar de forma definitiva seu desempenho, ficando tudo guardado para o futuro.

Mas apesar de todos os pontos positivos, a direção de David Yates parece fora de sincronia. Sua escolha é fácil de entender, já que David é um velho conhecido do universo de Harry Potter. Ainda sim, o filme sofre com algumas quedas de ritmo em momentos importantes. Sorte que J.K. Rowling caprichou no roteiro ou resultado poderia ser bem diferente.

Animais Fantásticos e Onde Habitam, apesar de ser o primeiro passo de uma nova franquia, funciona muito bem sozinho. Mostrando que é possível evoluir a abordagem e amadurecer os dilemas, sem perder a magia característica. Em tempos onde blockbusters não costumam aceitar sua verdadeira natureza, esse abraça com orgulho suas raízes.

Curiosamente, muitos encararam como um projeto caça-níquel. Desde o anúncio de Animais Fantásticos e até mesmo quando foi noticiado de que veríamos cinco filmes e não apenas três como planejado. Mas, uma coisa é certa: se os próximos longas mantiverem essa qualidade, podem levar meu dinheiro sempre que quiserem ¯\_(ツ)_/¯

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