Charles Luis Castro

5 jul, 2021

Filmes

Utilizando do humor como ferramenta de críticas socioeconômicas, America: The Motion Picture ataca o coração dos EUA

Caso você tenha perdido algumas aulas de história na escola, farei um breve resumo da Revolução Americana: em seus últimos momentos de vida, após ser atacado pelo lobisomem traidor Benedict Arnold (Andy Samberg), Abraham Lincoln (Will Forte) pede para que seu melhor amigo George Washington (Channing Tatum) assuma a missão de libertar a nação das mãos dos britânicos. Armado de suas serras elétricas, ele reúne uma equipe poderosa para alcançar esse objetivo. Óbvio que as coisas não aconteceram assim, mas essa é a trama de America: The Motion Picture, novo longa animado lançado pela Netflix.

O roteiro escrito pelo eclético David Callaham (Zumbilândia: Atire Duas Vezes, Mulher-Maravilha 1984, Mortal Kombat) parece a versão atualizada de um clássico dos filmes de sátiras contra os EUA, Team America: Detonando o Mundo. Porém, mesmo com a semelhança temática, America: The Motion Picture não é uma mera cópia. O texto de Callaham parece uma metralhadora de piadas, como uma sucessão de esquetes que nunca deixam o espectador pensar muito sobre a graça por trás delas. Essa bobagem 100% autoconsciente funciona também por conta da direção de Matt Thompson, que faz sua estreia em longas, mas traz consigo uma carga de trabalho em animações adultas como Archer.

Para ilustrar seu humor, o filme aposta em referências dos mais diversos produtos da cultura pop. O vilanesco Rei James (Simon Pegg) é uma versão britânica do Imperador Palpatine, contando até com seus AT-ATs e uma arma secreta para derrotar os rebeldes americanos. A própria equipe formada por George Washington nada mais é do que um esboço dos Vingadores do período colonial. Aliás, os melhores momentos do longa surgem da interação entre esses personagens. O racista beberrão Samuel Adams (Jason Mantzoukas), a mulher chinesa Thomas Edison (Olivia Munn), Paul Revere (Bobby Moynihan), John Henry (Killer Mike) e Gerônimo (Raoul Trujillo) são os responsáveis por lutar pela indepedência americana, o que certamente fez boa parte da população conservadora ter um ataque de nervos.

America: The Motion Picture encontra forças em suas críticas socioeconômicas, que surgem na tela na mesma velocidade das piadas de duplo sentido. É nesse aspecto que o roteiro mostra sua verdadeira intenção: ridicularizar todos os pilares do patriotismo cego que permeia os EUA. E nada mais eficiente do que transformar um importante momento histórico em um blockbuster de ação idiota, com o dia sendo salvo por um banho de cerveja e uma partida de beisebol. O texto toca em temas como racismo, imigração e questões indígenas. Por vezes, esses comentários soam como óbvios, mas são eficientes dentro da proposta do projeto.

Vale o destaque para o trabalho de dublagem, com grandes nomes da indústria se divertindo em cada linha de diálogo. Channing Tatum possui um ótimo timing cômico e é bom vê-lo de volta ao gênero. Não sou de bater nessa tecla, mas acredito que o idioma original favorece muito as piadas do filme. Já a animação é bastante bonita e fluida e não perde qualidade nem mesmo nas cenas mais intensas. Esse aspecto certamente tem ligação com a presença da dupla Phil Lord e Christopher Miller como produtores, já que ambos trabalharam em projetos como Homem-Aranha no Aranhaverso e A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas.

Embora o humor não funcione durante todo o tempo e a duração seja elevada, America: The Motion Picture tem seu valor como uma bobagem capaz de arrancar boas risadas. Em tempos onde a realidade parece cada vez pior, não faz mal viajar por um universo paralelo repleto de idiotices.

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