A Vastidão da Noite (Prime Video) | Crítica

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Apesar da estrutura simples, A Vastidão da Noite é uma ficção científica ambiciosa.

A ficção científica sempre foi uma das grandes paixões da indústria cinematográfica, ganhando contornos cada vez mais impressionantes com o passar do tempo. Os grandes blockbusters que saem anualmente em nada lembram as produções praticamente amadoras de décadas remotas. Por isso é curioso que, na contramão do atual cenário, um filme com orçamento extremamente limitado represente um respiro criativo para esse gênero. A Vastidão da Noite, lançado recentemente pelo Prime Video, é uma ficção científica em seu estado mais puro e uma prova de que – nas mãos certas – menos é mais.

Ambientado em uma pequena cidade do Novo México, em plena Guerra Fria, A Vastidão da Noite acompanha um momento incomum nas vidas da telefonista Fay (Sierra McCormick) e do radialista Everett (Jake Horowitz). Enquanto a maioria dos habitantes assiste um jogo de basquete, os dois precisam correr contra o tempo para resolver um mistério que pode colocar todos em risco. Seria uma invasão estrangeira ou algo oriundo dos confins do universo? É através dessas questões que a trama vai conduzindo o espectador.

Quando o orçamento é limitado, um filme precisa encontrar força em outros elementos. E aqui existem três bem definidos. Em primeiro lugar estão os diálogos. Rápidos, precisos, instigantes e criativos. É através da comunicação entre os personagens que os mistérios da história são desenvolvidos. Em alguns momentos, o longa parece até um podcast. A imagem some da tela e o relato do personagem em questão ganha destaque. É uma experiência auditiva, principalmente.

Em seguida, vem o roteiro dos estreantes James Montague e Craig W. Sanger. A dupla presta uma espécie de homenagem a produções clássicas do gênero como Além da Imaginação e Guerra dos Mundos, de Orson Welles. Apesar disso, A Vastidão da Noite possui identidade própria. É impossível tirar os olhos da tela com tudo que está acontecendo. Se o roteiro não tivesse tanta qualidade, o filme perderia muito de sua força.

Jake Horowitz em cena de A Vastidão da Noite. Divulgação: Prime Video.

No entanto, é preciso alguém capacitado para extrair o máximo dos elementos citados anteriormente. E a sorte é que o diretor estreante Andrew Patterson é o homem certo para o trabalho. Andrew transforma o que poderia muito bem ser taxado apenas como filme de roteiro em um filme de expectativas. Possuindo o perfeito domínio do espaço ao redor dos personagens, o diretor escolhe com precisão cirúrgica cada plano e enquadramento. No que focar e o que deixar apenas no imaginário do espectador. Seu trabalho com as câmeras é primoroso.

Lembra dos diálogos? Andrew sabe como utilizá-los para estabelecer um clima de terror constante. Cada descoberta causa um prazeroso arrepio na espinha. Como se estivéssemos cada vez mais próximos da verdade, mas sem a certeza de que queremos mesmo seguir nessa estrada. É o poder da narrativa em todo seu esplendor. Se souber administrar a carreira, Andrew Patterson com certeza será um nome requisitado em Hollywood.

A Vastidão da Noite acaba sendo um filme ardiloso. Sua estrutura aparentemente simples esconde um projeto repleto de camadas, com uma ambição pungente. É o tipo de experiência que você nem imagina que está precisando vivenciar. Mas que vai agradecer por ter feito parte.

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