Vinícius Augusto Bozzo

21 dez, 2020

Filmes

Humor italiano baseado em uma história real

Imagine um homem que resolve ter seu próprio país independente sediado em um ilha no meio do mar. A Incrível História da Ilha das Rosas já seria maluca se tivesse saído, originalmente, da cabeça dos roteiristas, mas realidade foi a própria mãe de tamanha criatividade. O filme, baseado em uma história real, é dirigido por Sydney Sibilia, que também assina o roteiro ao lado de Francesca Manieri.

O filme é mais uma das investidas da Netflix em produções que falam outras línguas no idioma e também na tela. O ator Elio Germano interpreta o engenheiro bolonhês Giorgio Rosa que, em 1968, resolve construir uma ilha no Mar Adriático, distante da praia o suficiente para estar em águas internacionais e declara a ilha independente da Itália. Junto de Rosa, está seu fiel amigo de faculdade Maurizio e um divertido grupo de figuras inusitadas que vão parar na ilha. Entre elas está uma bartender grávida, um náufrago e um fugitivo de guerra que virou promoter de baladas. O elenco de coadjuvantes em grande sintonia faz um escada interessante para os arcos principais de Elio. Esta fauna de personagens já seria o suficiente para bons conflitos e boas risadas, mas a ilha tem espaço para muito mais.

Os atores Matilda e Elio nas filmagens. Rosa e Gabriella da vida real nunca se separaram nem antes nem depois da ilha, ao contrário do casal fictício.

O tom refinado de comédia ao mesmo tempo pueril e crítico, coloca Elio Germano como um Roberto Benigni da geração do streaming. A aproximação não vem só pelo humor genuíno e o idioma italiano, mas também pela interpretação singela e doce, principalmente nas cenas com a grande paixão de Giorgio Rosa, a bela Gabriella, interpretada por Matilda De Angelis. A ex-namorada que Rosa quer reconquistar também é seu contraponto. Uma advogada especialista em direito internacional é o par perfeito para quem vai enfrentar problemas com as lideranças italianas e até recorrer a ONU pelo seu reconhecimento como nação.

A tensão do filme acaba ganhando ares de seriedade quando a ilha vira manchete nas capas dos jornais. Afinal, ela passou a ter uma programação constante, visitas diárias de curiosos e jovens atrás da liberdade de suas festas. Entre os dois maiores dramas de Giorgio, criar um local independente e ao mesmo tempo reconquistar Gabriella, o divertido texto dá o tom necessário para um filme que questiona também o que é a liberdade. Os arcos de romance e de aventura jurídica se entrelaçam muito bem.

Outro ingrediente italianíssimo são as paisagens incríveis do litoral da Itália, com uma direção de arte que priorizou o realismo sim, mas com um colorido alaranjado especial. Essa textura de contrastes e cores vivas parece nos querer colocar em um cenário de sonho, de devaneio. Aliás, a pergunta que povoa a mente do espectador o tempo todo é: isso aconteceu mesmo? O produtor do filme, Matteo Rovere, avisou em uma entrevista que "85% do que o filme mostra aconteceu de fato, e apenas 15% foi a alterado ou incluído na história original, porque ela já era, por si só, fantástica". Ele tem razão.

A ilha, que ganhou selo próprio, adotou o Esperanto como idioma e teve centenas de pedidos de cidadania. Ela não teve vida longa na vida real, mas está eternizada em um filme delicioso de assistir e que nos estimula a buscar outros idiomas, sons, cores e intensões em nossas escolhas fílmicas ou na própria vida. Os donos de streamings contam com isso.

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