Charles Luis Castro

5 nov, 2015

Filmes

O texto a seguir pode conter SPOILERS de 007 Contra Spectre.

Por mais que amemos nossos empregos, estudos ou hobbys, uma hora a carga de paciência chega ao fim. Você sente vontade de jogar tudo pro alto ou queimar a coisa toda de vez. Tudo que mais importa é parar para respirar, enxergar o mundo ao redor. No decorrer de quatro filmes, Daniel Craig e sua versão de James Bond ficaram mentalmente e fisicamente esgotados. Essa vida de caçar e ser caçado não era mais atrativa para o 007. Mas antes de sair dirigindo seu carrão ao lado de uma bela mulher, ele tinha um última missão a cumprir.

007 Contra Spectre coloca James Bond na reta final de uma corrida que ele nem sabia que estava disputando. Diante de seu maior inimigo de todos os tempos, o agente teve que enfrentar seu traumático passado para colocar seu futuro de volta aos eixos. Como uma continuação direta de Skyfall, mesmo que tenha um ritmo completamente oposto, o novo longa da franquia é uma prova de que ser refém de expectativas pode não ser tão bom.

cosmonerd_007contraSpectre_02Sam Mendes já havia feito uma obra prima em Skyfall, disparado um dos melhores filmes do personagem criado por Ian Fleming. Retornando para a cadeira de diretor, algo que não acontecia desde a década de 80, era normal esperar algo igualmente grandioso. Mas a opção de construir 007 Contra Spectre como um filme banhado pelo mistério pode desapontar quem se acostumou com o James Bond porradeiro e explosivo de Daniel Craig.

Outra mudança visível era a iniciativa de criar uma ligação desde Cassino Royale até Spectre. E é no decorrer do longa que você percebe que tudo realmente estava conectado, como uma teia de informações e pessoas. O símbolo da organização ser um polvo representa isso da melhor maneira possível. Como tentáculos que prendiam James Bond, cada inimigo apresentado até hoje tinha o mesmo ponto de origem. A cabeça pensante de algo grandioso. O maior inimigo do 007: Ernst Stavro Blofeld.

Christoph Waltz comprova porque é um dos melhores atores dos últimos anos. De fala mansa e passos leves, ele encarna com maestria o homem que moldou o destino de James Bond desde sua infância. Se ele afirma estar presente desde o começo de tudo, poderia aparecer mais durante as quase 3 horas de filme. Alguém tão excelente merece ser mais explorado. E esse é um dos grandes problemas de Spectre.

cosmonerd_007-Contra-Spectre-05Do outro lado da moeda, M (Ralph Fiennes) luta para que o Serviço Secreto e o programa 00 se mantenham relevantes diante do novo cenário mundial. Além de explorar o passado de Bond, os filmes com Daniel Craig trouxeram também a temática da globalização. A premissa levantada por C (Andrew Scott) durante quase todo filme é de que um simples drone poderia fazer o trabalho de um agente de campo. Sem mortes, só diversão. Se o passado assombra James, o futuro não é tão amigável.

Com um espírito dos filmes clássicos, 007 Contra Spectre peca em tentar agradar demais os fãs e deixar de lado o que trouxe o personagem de volta para os holofotes. Ao jogar a expectativa para o público, o filme exagera num mistério de certa forma inútil. Esconder até o último segundo a identidade de Blofeld e sua ligação com James seria mais interessante se fosse melhor construído. As revelações não colocam nenhuma expressão de surpresa no rosto do protagonista e nem nos fãs mais atentos. Mesmo sendo uma comparação injusta, é impossível não ficar pensando em Skyfall. A sede de usar o máximo possível da Spectre, ainda mais depois de toda a confusão para tê-la de volta, não foi a melhor das opções.

cosmonerd_007contraspectre_12-750x380Marca registrada da nova safra, a Bond girl da vez não deixa a desejar. A bela Madeleine Swann (Léa Seydoux) segue a dinastia de mulheres fortes, que sabem se defender e que ainda tem tempo para salvar nosso herói. Mesmo apelando para o rapto, algo parecido com o que aconteceu com Vesper em Cassino Royale, o roteiro não diminui sua importância na trama e na vida futura do 007.

Daniel Craig disse em várias entrevistas recentes que estava cansado de viver o agente britânico. Isso fica explícito em sua atuação no longa. Mais canastrão do que o normal, o ator parecia contar as horas para que tudo terminasse. Mesmo tendo contrato para mais um filme, é possível afirmar que a Era Craig chegou ao fim. Ser um dos melhores James Bond de todos os tempos é um prêmio bacana até.

007 Contra Spectre é um bom filme, mas poderia ser excelente. Ainda sim é um final decente para a franquia. Retrato fiel do desgaste imposto pelo tempo, o longa mostra que até mesmo James Bond fica de saco cheio de salvar o mundo. Melhor deixar o personagem descansar por um bom tempo. Voltar com as energias renovadas será melhor para todo mundo.

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