Depois de uma década de sua estreia, o segundo filme da trilogia ainda é um dos melhores do gênero

por Lucas Rocha

Não há como negar que Batman – O Cavaleiro das Trevas é um dos melhores (se não o melhor) filmes no segmento de “super-heróis”. Referência em construção de história e personagens, e ousado na proposta de Christopher Nolan na ambientação de um universo sombrio e realista, trouxe a imagem do herói para mais perto da realidade em que vivemos. Primeiro filme baseado em hqs a bater na casa do 1 bilhão de dólares em arrecadação de bilheteria, foi lançado nos cinemas brasileiros em 18 de julho de 2008, no mesmo ano em que Homem de Ferro dava início ao universo Marvel. É a partir desse filme que se inicia a adaptação de personagens de fantasia em situações realistas, no qual poderíamos nos relacionar e identificar. Todos os estúdios queriam ter o seu “Cavaleiro das Trevas”.

Apesar de ser um filme do Batman, O Cavaleiro das Trevas não é uma história de herói, e sim de vilões, pois mostra os heróis tomando decisões questionáveis a ponto de serem vistos como vilões. Toda a trama e boa parte dela seguindo os planos do Coringa (se engana quem acreditou que ele não faz planos), leva à distorção dos valores do promotor de justiça Harvey Dent, o cavaleiro branco de Gotham, e do próprio Batman, ao apresentar a natureza corruptível do mais puro e do desvirtuamento do senso de justiça com as próprias mãos. Essa mudança de personalidade é indicada na frase que Harvey diz a Bruce “Ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar um vilão”

O roteiro de Nolan, escrito em parceira com seu irmão Jonathan Nolan, constrói uma série de discussões sobre ética e filosofia durante todo o filme. A subversão dos ideais de Harvey Dent, que depois de sofrer uma perda pessoal e ser torturado psicologicamente pelo Coringa, se torna aquilo que ele mais queria destruir. E um Batman perdido e dividido, que mostra um lado mais humano do personagem muito bem explorado, entre a decisão de matar ou não. Tudo isso em um ritmo frenético que deixa qualquer um fascinado.

Mas esse não é um texto de crítica do filme. A ideia é mostrar o legado que ele deixou para a indústria como um todo e como foi usado nos cinemas.  

Para início de conversa, o Batman de Christopher Nolan veio para apagar a imagem do morcego de Joel Schumacher. Toda a estética realista do filme, adaptando os elementos das HQs para o nosso dia a dia, o tom sério adotado pela postura do herói, são elementos que passaram a ser vistos como padrão nos anos seguintes. O Cavaleiro das Trevas se tornou símbolo de excelência, e não foi atoa que Hollywood mudou o jeito de fazer filmes de heróis, assim como o comportamento do público ao consumir filmes.

Enquanto muitos estúdios tentavam emular a fórmula Nolan, como exemplo, o reboot do teioso com O Espetacular Homem Aranha da Sony, (bom filme, má execução) que falhou ao tentar mostrar uma trama mais pé no chão, sombria e um Peter mais confiante e rebelde, pouco parecido com o dos quadrinhos, o Universo Cinematográfico da Marvel seguiu seu próprio caminho, nada sombrio e só um pouco realista, com Homem de Ferro sendo o ponta pé inicial de um negócio que hoje é um modelo de sucesso. O único filme a encostar na proposta do universo Nolan, carregado com peso de dramaticidade, roteiro completo, e o sombrio e realista, foi Logan.

Já a DC escolheu seguir pelo caminho do Cavaleiro das Trevas, como se fosse o único, e sem planejamento acabou afundando suas chances de dominar um mercado que já à pertencia há décadas. Surgiu daí a parceria trágica entre Christopher Nolan e Zack Snyder que deu origem ao filme do Homem de Aço (ótimo filme, péssimo Superman). Renegando toda a raiz do Super e embutindo toda a carga dramática do Batman, o resultado foi amargo (pior, na verdade). Fomos apresentados ao que seria o ínicio do turbulento Universo DC. O mesmo modelo foi apresentado em Batman VS Superman, e de novo um resultado triste. Hoje já temos uma luz no fim do túnel com Mulher Maravilha, e talvez com Liga da Justiça, mesmo com seus problemas.

O péssimo uso do legado de Cavaleiro das Trevas pela DC em seu universo compartilhado é a prova que nem todo exemplo deve ser seguido, mas isso não quer dizer que não deva ser usado. A própria Marvel faz usos pontuais de algumas dessas estruturas em suas produções.

Nolan se aproveitou do tempo e da liberdade criativa para entregar uma produção brilhante, do ínicio ao fim, e nos presenteou com o que pode ser aceito como o filme definitivo do Batman. Sua estrutura é elogiada e aplicada até hoje em roteiros do gênero e dificilmente será superada ou esquecida.

Sigo na esperança de que um dia a DC/Warner aprenda com os erros do passado e coloque em prática o melhor do legado sombrio e realista, mas sem o dedo do Nolan e Snyder na produção (por mais que eu endeuse os dois). Agora só nos resta esperar pelos próximos filmes e torcer para que Walter Hamada, novo presidente da produção dos filmes do universo DC, consiga colocar tudo nos trilhos. 😉