O ambiente do terror é habitado pelos mais obscuros e profundos pesadelos da raça humana. Desde vampiros, lobisomens, múmias, animais mutantes e toda a sorte de criaturas. Cada uma delas com o poder de despertar o medo no espectador. Mas, por mais subestimados que pareçam e por mais saturados que estejam, somente os zumbis carregam consigo a capacidade de desencadear o apocalipse. E nada é mais aterrorizante para o sistema da sociedade do que o fim do mundo. E se hoje vivemos com essa ideia marcada na mente é graças a George A. Romero, o revolucionário do terror moderno.

Ainda que não tenha dado início aos filmes de zumbis, Zumbi Branco (1932, estrelado por um decadente Bela Lugosi) e Cadáver Atômico (1955) foram os primeiros exemplares, George A. Romero soube condensar todas as alegorias sociais que os mortos-vivos representam em suas obras. E passou a ditar todo um conceito que é seguido até hoje, de Resident Evil passando por The Walking Dead.

Os filmes de terror haviam se tornado populares em meados de 1929, primeiro como um escapismo para a população norte-americana assombrada pela Grande Depressão. Mas logo ficou claro o quanto aqueles monstros eram retratos fiéis da situação de cada um ali presente na sala de cinema. Romero busca inspiração nessa fonte e ainda atualiza o texto para o momento que os EUA vivia.

O seminal A Noite dos Mortos-Vivos (1968) vai na direção oposta ao que era moda na década passada: os monstros gigantes, frutos do pânico atômico que assolou o mundo após Hiroshima e Nagasaki. Mas George A. Romero mostra que, enquanto os americanos olhavam para fora do país, os verdadeiros monstros estavam dentro de casa. Existe uma crítica social importante quando familiares, amigos e vizinhos comem uns aos outros. Escancarando o quanto a ordem social é frágil e que estamos sempre na beira do precipício. E ainda com um duro golpe nos conflitos raciais e morais ao colocar um negro como protagonista.

Em 1978, Romero lança aquela que é considera sua obra prima: Despertar do Mortos. Tornando ainda mais clara a mensagem apresentada no longa anterior, o diretor mostra de uma vez por todas que nós somos os zumbis, mesmo que não tenhamos fome por carne humana. São lançadas críticas ao consumismo exagerado, alienação das massas e a incapacidade da reestruturação social. Aqui os mortos-vivos assumiram o controle e os humanos são tratados como fonte de alimentação.

Ambientado em um shopping, Despertar dos Mortos é uma sátira poderosa ao egoísmo humano e ao peso exercido pelo capitalismo mesmo quando o conceito de sociedade foi para o buraco. Isso fica evidente na cena em que um grupo de sobreviventes invade uma loja apenas para satisfazer necessidades triviais. Sem contar no retrato de zumbis caminhando por corredores de lojas, inertes ao que os cerca, talvez por uma mera lembrança do que viveram antes de serem canibais sem cérebro. E olha, parece muito com um sábado qualquer em todo shopping ao redor do mundo ¯\_(ツ)_/¯

Em Dia dos Mortos (1985), George A. Romero conta o último capítulo de sua brilhante trilogia. Num clima mais depressivo e soturno, o diretor continua distribuindo sua críticas sociais. Para variar, o verdadeiro mal é o ser humano, com os zumbis sendo lembretes de que tudo é culpa nossa. E mantendo a escrita dos longas anteriores, é o egoísmo e a intolerância das pessoas que faz a casa cair novamente. Aqui, George ainda faz um inteligente jogo de inversão de conceitos, nos deixando mais sentimentais ao zumbis e cagando para os humanos. Brilhante.

George A. Romero ainda esbanjou sua genialidade em outras longas, como: Terra dos Mortos (2004, com críticas ácidas ao corporativismo, luta de classes, ganância e os efeitos políticos da Era Bush) e Diário dos Mortos (2007, o primeiro filme de zumbis a criticar a superexposição na internet e a cultura da sociedade do espetáculo. Uma previsão do que aconteceria com o advento das Redes Sociais e Youtubers).

Ainda deu a benção para a refilmagem de seu clássico A Noite dos Mortos-Vivos, agora comandado por Tom Savini. Trabalhando como produtor e roteirista, Romero conseguiu atualizar sua própria mensagem ao retrato social dos anos 90. O que resultou em uma obra que mais parece uma continuação espiritual do que um mero remake.

George A. Romero quase dirigiu Resident Evil, o que faz qualquer fã do terror e dos games sonhar com os rumos que a franquia teria tomado. E ainda se aventurou, com menor sucesso, no mundo das HQ’s ao lançar para a Marvel o Império dos Mortos. Apesar da bela arte de Alex Maleev, não é o melhor trabalho de Romero. Acontece.

George A. Romero faleceu hoje, dia 16, aos 77 anos devido ao câncer de pulmão. Deixou como legado sua obras geniais e suas críticas sociais afiadas, além de toda a inspiração para os filmes de zumbis lançados ao longo das décadas. Dos melhores aos piores. E mais do que isso, deixou a certeza de que o cinema de terror moderno não seria o mesmo sem a sua contribuição.