A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro, Damares Alves, voltou a causar polêmica recentemente por afirmar que a princesa Elsa de Frozen é lésbica, direcionando sua retórica para a “denúncia” de que com isso a Disney está manipulando as crianças para que elas passem a se interessar amorosamente por pessoas do mesmo sexo.

As falas da ministra – assim como a de outros ministros e apoiadores do atual governo – têm causado bastante polêmica, sendo que uma das mais lembradas é “menina vesta rosa, menino veste azul”. Não dá pra esperar muita coisa de quem possui esse tipo de pensamento, certo?

Setores fundamentalistas das igrejas tentam promover boicotes contra a Disney há muito tempo, como quando o pastor Silas Malafaia se revoltou contra um beijo gay numa animação Star Wars. No entanto, nada que mereça grande destaque ou represente queda do valor de mercado da Casa do Mickey.

Acontece que em Vingadores: Ultimato temos o primeiro personagem declaradamente homossexual no universo da Marvel Studios. Ironicamente, esse personagem é um dos diretores do filme, Joe Russo. Isso acontece na cena onde vemos Steve Rogers mediando um grupo de apoio aos que sobreviveram ao estalo de Thanos. Na mesma cena, ocorre a participação especial do criador do Titã Louco, Jim Starlin.

Por que então é preferível pegar um exemplo onde não há indício algum de homossexualidade, como é o caso de Elsa em Frozen, do que um declarado como acontece em Vingadores: Ultimato?

A resposta deve passar pela iconografia que Elsa carrega. Mesmo possuindo um forte apelo com as crianças, os filmes da Marvel Studios geralmente possuem uma classificação etária entre os 12 e 14 anos, fase da pré-adolescência. Com Frozen o apelo é muito maior, atingindo uma criançada ainda mais nova.

Na minha condição de mero observador, me causa nojo que pessoas que ocupam cargos a princípio respeitáveis (seja padre, pastor, ministro, presidente etc) instrumentalizem crianças para inflamar suas retóricas reacionárias. Esses “líderes” estão reféns de sua própria ignorância até o dia que morrerem.

Não há problema algum que uma obra retrate um personagem homossexual ou heterossexual. A sociedade de um modo geral ainda é resistente a muitas nuances que envolvam uma simples retratação de amor que não soa imprópria para determinada faixa de idade, mas a expectativa é de que as coisas melhorem com o tempo, conforme mais pessoas aceitem e revejam seus preconceitos, entendendo que não é da conta dela o que acontece na vida privada dx outrx.

No caso da Damares, eu sinto muito pelos abusos que ela sofreu quando criança (evocando aqui o episódio do “pé de goiaba”), e toda essa conversa só deixa evidente que ela não possui condições psicológicas de comandar uma pasta tão importante. Pelo bem dela e de todos os brasileiras, seria melhor dar lugar a uma pessoa mais preparada para o cargo.