Apesar do que o título dessa matéria sugere, você já deve ter percebido que a forma como consumimos cinema está bem diferente de alguns anos atrás. Mas ainda existe um longo caminho pela frente, por isso a Apple entrou na jogada. A empresa da maçã pretende usar todo seu poder para superar um grande obstáculo cinematográfico: as janelas de exibição.

Trocando em miúdos, uma janela de exibição é o período em que o filme passa a ser exclusivo de uma plataforma específica. Nos cinemas, esse tempo chega a ser de 90 dias. Durante três meses, pelo menos de forma legal, os títulos não podem surgir em DVD/Blu-ray por exemplo. Ainda que as grandes redes não mantenham os longas em exibição durante todo esse tempo, afinal vivemos a era dos grandes lançamentos semanais, é um direito que elas não costumam abrir mão.

Acontece que o grande público, que não costuma gastar horas se informando sobre os próximos lançamentos, está buscando outras formas de entretenimento. O mercado físico, de venda de DVD’s e Blu-rays, vai mal das pernas. Sendo o segundo na linha de sucessão, recebendo os filmes após a saída dos cinemas, era de se esperar que a situação estivesse melhor. Mas a explosão do streaming, tendo na Netflix seu principal exemplo, jogou uma pá de cal nas locadoras. Até mesmo a venda em lojas, como as Americanas, passa por problemas.

A Netflix vem causando uma mudança nesse jogo, tirando o sono dos estúdios, distribuidoras e colocando na mão do público o poder de escolher aonde e quando vai assistir seus programas favoritos. Ainda sim, com todas as vantagens, a empresa está amarrada aos contratos. Por isso, os grandes lançamentos dos últimos anos ainda demoram para figurar no cardápio.

É aí que a Apple quer jogar. De acordo com informações divulgadas pelo Bloomberg, a empresa está negociando com as gigantes do cinema para ter seus filmes no catálogo antes da chegada em outras plataformas. Mantendo uma conversa com 21st Century Fox, Time Warner e a Comcast (dona da Universal), a Apple quer disponibilizar os longas para aluguel no iTunes em até 15 dias após o lançamento nas salas. Obviamente aumentando o preço de costume.

Os grandes lançamentos do cinema na palma da sua mão. Essa é a ideia da Apple.

Atualmente, a Apple precisa esperar pelo menos 90 dias para poder faturar com os filmes. Nesse tempo, muita gente já foi ao cinema ou usou a sagrada locadora Torrent. Assim, tanto a empresa quanto as distribuidoras acabam não arrecadando o esperado. Desse modo, empresas como Netflix e Amazon compram os filmes por um preço baixo, já que ninguém espera ganhar mais dinheiro com eles.

Só que caso esse plano saia do papel, o cenário muda completamente. Em 15 dias, o boca a boca ainda está forte. E quem ainda não conseguiu ir ao cinema, pelos mais diversos motivos, pode ter o filme em casa pelo preço que a Apple e os estúdios considerarem justo. No cenário hipotético, você poderia montar sua própria sessão em casa com os amigos para assistir Liga da Justiça ou Mulher-Maravilha. Claro, a maior TV do mercado não consegue emular a sensação de uma sala de cinema. Mas em tempos corridos, comodidade é sempre um diferencial.

Isso ainda pode abrir espaço para uma plataforma pouco utilizada, o VOD (Video On Demand). Pelos mais variados preços, dependendo do ano de lançamento e etc, você pode adquirir o filme para assistir em seu computador, smartphone e até na TV (caso você seja um cliente de TV por assinatura). Atualmente, um grande lançamento no iTunes custa algo em torno de 20 Trumps. Com o Dólar na casa dos R$ 3,34, sairia por volta de 66 golpinhos. Na ideia da Apple, o aluguel dos grandes lançamentos ficaria na casa dos 25 a 50 Trumps. Preço razoável para eles, mas impraticável por aqui.

Amazon disputa espaço com a Netflix e agora enxerga a Apple pelo retrovisor.

Vale lembrar que apesar de ser uma gigante do streaming musical, a Apple ainda não possui tradição quando o assunto é streaming de vídeo. Por isso, uma ideia tão ousada como essa pode virar o jogo para a eterna empresa de Steve Jobs. Principalmente se levarmos em conta que alguns meses atrás o Spotify anunciou o investimento em séries próprias, voltadas para a música. Quem não se atualizar, vai ficar para trás.

Acontece que as grandes redes de cinema não enxergam a ideia com bons olhos. Apesar de uma queda nos lucros e estagnação das mídias físicas, elas ainda se preocupam com a arrecadação nesse tipo de parceria e, principalmente, com a pirataria. Afinal, se tem gente que filma em uma sala escura e lotada, imagina no conforto de casa. Mas nomes fortes parecem finalmente entender que o mundo está mudando. Kevin Tsujihara, chefão da Warner Bros, afirmou que disponibilizar filmes rapidamente poderia satisfazer o apetite do público e até combater a pirataria.

Mesmo que a ideia da Apple não saia do papel, é necessário que os grandes estúdios e distribuidoras percebam que o jogo está mudando. O público procura conforto e praticidade, e atualmente não param de surgir ferramentas que ofereçam isso. Ir ao cinema ainda é insuperável, mas até quando será assim?