A prática de romantizar várias deficiências da sociedade tem sido cada vez mais recorrente no entretenimento produzido pelo mundo. Tive a oportunidade de assistir em uma preview o filme “Amor.com”, estrelado por Isis Valverde e Gil Coelho, que conta a história de uma vlogueira de moda, e de um vlogueiro de games que acabam se apaixonando.

A comédia romântica trata, em seu contexto, de um tema muito abordado nos dias de hoje – a vida e exposição dela na internet. O roteiro, aparentemente desenvolvido para o público teen, dá inúmeras brechas para causar o debate e a reflexão acerca de temas polêmicos, porém os trata de uma maneira indiferente e, portanto, eu diria até imprudente se o público atingido pelo time for, de fato, a nossa incrível geração de adolescentes.

Um dos principais problemas vai desde a construção dos personagens ao reforço dos estereótipos. Katrina, que faz vídeos para o Youtube sobre moda, é mostrada como uma menina fútil, bobinha e princesa. Não sei se é uma característica da personagem ou se foi um problema de atuação, Katrina faz um pouco a linha “falsiane” ao gravar o que seriam ‘snaps’ ou ‘stories’. O que não condiz com o desenvolvimento da personagem na história, que mostra que Katrina ama moda e ama o que faz. O personagem Fernando transmite o viés caricato, de forma a ressaltar o reforço negativo do estereótipo nerd. Fernando mora com a mãe e é mostrado inúmeras vezes sem postura, meio bobão, com aspecto sujo e desleixado. Dessa mesma forma são mostrados os amigos dele. Situação bem impressionante, visto que em pleno 2017 uma produção retrate de forma tão pobre esse público, sendo que ele já foi incorporado pela sociedade, e está cada vez mais sendo valorizado perante a indústria cultural que já o transformou em moda(e tá lá até hoje).

Na trama, o casal é amplamente criticado por Fernando ser considerado “pouca areia pro caminhãozinho” de Katrina. Esse é um problema real que está presente na sociedade em que a gente vive, e abordá-lo foi um aspecto feliz de “Amor.com”. As críticas afetaram o relacionamento e a vida de ambos, assim como acabou trazendo uma mensagem tímida, mas importante, interpretada por mim da seguinte maneira: “As pessoas deveriam arranjar uma pia de louça pra lavar ao invés de ficar metendo o dedo na vida dos outros”, inclusive lá em casa tem louça e roupa caso alguém tenha interesse.

Mas o reforço negativo ao estereótipo não é um problema exclusivo no filme que estreia no dia 01 de junho. A indústria do entretenimento, não só o cinema e não só esse filme, é uma das principais fontes da problemática aqui estampada. A cultura nerd foi por muitos anos ilustrada através de personagens homens, feios, mal vestidos, lentos e sem habilidade nenhuma quando se trata de iniciar uma conversa. Se for com uma garota então… O problema segue em todos os estereótipos apresentados na TV, no cinema, nos seriados e etc.

Mas há outros assuntos de mesma ou maior importância a serem debatidos no novo filme de Anita Barbosa. Um dos principais é o tema que dá introdução à trama e que serve de ponte para o primeiro contato entre Katrina e Fernando. Uma foto de Katrina, sem roupa, tirada por um rapaz com quem ela costumava sair, “vaza”. O fulano, acha que é de bom tom enviar a foto, que ele tirou enquanto ela dormia, por whatsapp para alguns amigos e logo ela acaba se espalhando. Espera, que grande oportunidade pra gente tratar de um assunto tão importante, e mostrar para o nosso público, em grande parte, jovens meninas, como é delicado, como é sério e mostrá-las em uma maneira suave dentro da narrativa do filme, o que deve e pode ser feito em situações assim, certo? Errado. A abordagem da temática foi infeliz. Em tempos dos quais temos séries como “13 Reasons Why” que mostram o tamanho do impacto que uma atitude dessa pode causar na vida de alguém, o assunto foi tratado como um tema qualquer. Katrina fica triste e chora, e tem a brilhante ideia de pedir pra um nerd, Fernando, que ela nunca tinha falado, só visto a alguns minutos atrás, hackear o dispositivo do rapaz que enviou as fotos para apagá-las. Ponto um: hackear é uma prática ilegal, ponto 2: a relevância do fato que um indivíduo cometeu um crime ao enviar as fotos de Katrina, sequer foi abordada, e a importância do tema se perdeu nos primeiros minutos do filme. Processo no cara? Não. Denúncia? Não. Nada disso foi sequer ventilado no decorrer do filme. Ela e Fernando comentem um outro crime para resolver o primeiro. Não vale nem a pena desenvolver o método usado que Fernando usava para hackear, que só precisava do nome e sobrenome de alguém pra invadir o celular e apagar os envios feitos em um dispositivo, assim como o registros e de todas as pessoas que receberam a famigerada foto. A exposição da intimidade de um outro indivíduo é crime de acordo com a constituição, e acontece mais do que a gente imagina pelo simples fato de que as meninas têm vergonha, têm medo, têm constrangimento. Casos como esse acontecem aos montes nas escolas, nas universidades, e aí entram questões como bullying, desrespeito, exclusão, e mais uma lista imensa que podem vir a destruir completamente o psicológico de uma jovem envolvida em um situação similar.

O filme também mostra problemas como o machismo, mesmo tendo em sua essência, um direcionamento muito claro para o público feminino. Pouco explorado e tratado como aparentemente normal. Casos como o dono de uma marca, que está sempre envolvendo Katrina em sua publicidade e faz uso de sua posição e da vulnerabilidade da protagonista pra tentar usá-la no meio do percurso. Não é de hoje que garotas aceitam convites de chefes ou de pessoas influentes pelo simples medo de “se eu recusar e perder a oportunidade (ou o emprego, ou o patrocínio)”. Guido, se aproveita do momento em que Katrina está vulnerável e do momento em que mostra disposição em ajudá-la assinar uma coleção própria. Isso se chama abuso de poder e também acontece o tempo todo.

Esse foi só um dos problemas de falta de profundidade do roteiro. O primeiro susto foi o uso das reactions do facebook em uma transmissão ao vivo feita no layout do youtube. E vários outros deslizes como esse acontecem durante a produção. Viria a calhar alguma pesquisa mais profunda do mercado da moda e da moda em si, sem falar da falta de profundidade nos assuntos que envolviam a cultura nerd, um exemplo simples é a inserção de algumas frases soltas para fazer referência a Star Wars, fora de contexto e sem fazer sentido algum. Os diálogos quando envolvem os dois assuntos, são fracos e superficiais.

Vale ressaltar que esse problema, não é um problema do cinema nacional, que tem apresentado produções incríveis nos últimos anos. É um problema do mercado do entretenimento, é um shade atrás do outro. “Amor.com” só teve a infelicidade de não saber explorar os temas e os universos tão ricos para falar com um público jovem em uma linguagem que seria super bem aproveitada pela sua audiência.

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