Escândalo da igreja é o gatilho de Spotlight, um filme sobre jornalismo que vai além do óbvio

Em tempos sombrios de pós-verdade, Spotlight – Segredos Revelados (2015) honra o legado de filmes como Rede de Intrigas (1976), de Sidney Lumet. O compromisso ético com a informação é posto à prova em qualquer época da história, e isso não poderia ser diferente com a nossa era da informação, cada vez mais conectada.

A trama se baseia nos fatos ocorridos nos anos 2000, onde o jornal The Boston Globe, através da equipe investigativa Spotlight, denunciou um escândalo envolvendo a igreja católica.

O elenco para dar forma ao caso é muito bem escolhido. Mark Ruffalo (Mike) faz um tipo que não exige muito dele, habituado a papéis onde o personagem possui diversos trejeitos. Rachel McAdams (Sacha) entrega uma jornalista que, assim como outros no filme, representa a pressão que qualquer um sofreria por expor uma cultura de pedofilia na igreja – e seu subsequente acobertamento.

Grande destaque para Liev Schreiber como Marty Baron, recém-chegado editor do The Boston Globe, cargo que ocuparia até 2012. Liev interpreta um sujeito extremamente calmo, que logo de cara identifica erros no procedimento do jornal, redirecionando assim os esforços para o que até então era “apenas” um caso de denúncia de pedofilia contra o celibatário John Geohan.

Segredos revelados

A partir daí o caso vai crescendo de modo assustador, onde é revelado o tamanho do problema: uma quantidade imensa de padres praticavam crime de abuso sexual com auxílio jurídico da própria igreja católica.

Spotlight é uma aula de jornalismo não apenas na sua abordagem técnica da profissão, mas também quando mostra o quão complexo é saber o momento certo de uma matéria e a consequência de deixar passar algo relevante. Nesse aspecto temos no personagem de Michael Keaton (Robby) a representação perfeita.

O recurso da câmera atrás dos personagens é usado com exaustão, retratando como o jornalista está sempre na vanguarda dos casos, em busca de informações para sua matéria. O diretor Tom McCarthy faz um trabalho seguro.

A trilha é embalada por uma melodia densa e melancólica, não há espaços para outra atmosfera aqui. A narrativa se preocupa com conduzir o caso minuciosamente, para impactar o espectador no final com uma simples cena de crianças cantando na igreja em celebração ao natal.

Também no final, indo além de Boston, temos uma enorme lista de outras cidades onde foi identificado escândalos do tipo, a chamada ‘lista da vergonha’. É com muita tristeza que li nome de cidades brasileiras entre as apontadas.