Musical biográfico de Elton John, Rocketman é repleto de energia, sensibilidade e uma atuação arrebatadora de Taron Egerton

A ópera de rock, orquestrada por Dexter Fletcher, brilha intensamente logo nos primeiros minutos de película – tal como Elton John (Taron Egerton) nos palcos. A cinebiografia musical é o espelho de seu personagem principal: iluminada, colorida e repleta de teatralidade e talento. Rocketman mostra os altos e baixos dessa montanha russa que foi a vida do popstar e rockstar britânico dos anos 60 ao fim dos anos 80. O relacionamento de Elton John com pais, produtores, amigos e amantes é milimetricamente mostrado em uma narrativa não linear, porém organizada e cheia dos melhores hits do astro. A obra é um deleite para seus fãs e, também, para quem ainda não é familiarizado com suas canções.

E é a teatralidade que mais chama atenção em seus números musicais, bem mais que em suas partes biográficas. Logo no início da narrativa vemos um Elton todo paramentado em asas e chifres, em passadas pesadas, rumo a uma terapia em grupo. Seus movimentos exagerados em combinação com elementos cinematográficos, como a câmera lenta e a iluminação em sua contraposição, ajudam a firmar um ambiente de palco em todas as partes do filme que são necessárias. Misturar, audaciosamente, teatro e cinema pode ser a maior virtude de Fletcher em sua direção – nenhuma novidade, porém raro de ver tão bem executada hoje em dia.

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Taron Egerton é Elton John em Rocketman

O roteiro de Lee Hall (Billy Elliot) é especialmente eficiente ao nos mostrar passagens de tempo da vida de Elton de maneira fluida logo no seu início, entre o personagem-narrador e sua versão infantil mais tenra, demonstrando desde cedo o talento com o piano e uma matadora sequência com The Bitch is Back. É impossível não se envolver com as músicas introduzidas de forma tão natural dentro do contexto do filme. As sequências mais empolgantes e animadas, como Saturday Night’s Alright, num frenético ritmo dançante da juventude dos anos 60 da Inglaterra até uma melodiosa, triste e emocionante versão de I Want Love, nos embalam por todo o drama familiar que o cercava:  um pai ausente, uma mãe relapsa e uma avó que fazia de tudo para que seu neto atingisse seus sonhos, mesmo com tanta bagagem e arrependimentos de sua própria vida. Não há como não se emocionar.

O filme, então, nos introduz a Bernie Taupin (Jamie Bell, coincidentemente o mesmo que fez Billy Elliot), grande compositor e parceiro da vida de Elton. Essa parceria, talvez, seja o verdadeiro romance do longa. Trata-se de um amor fraterno, sem sexualidade envolvida, um companheirismo e afeto que logo cativa o espectador com a canção Streets of Laredo. A música embala a primeira cena da dupla, tendo um restaurante como cenário daquele momento. Elton e Bernie, a partir daí, rumam em busca do seu primeiro contrato após a belíssima sequência de como ambos “descobrem” o maior sucesso que compuseram juntos: Your Song. A dupla apresenta diálogos que, apesar de ora um tanto expositivos, servem como pontos de alerta ao espectador sobre como Elton vai se desgarrando da vida pacata em Londres para um estrelato e um sucesso estrondoso. A partir daí o personagem principal ingressa nas desventuras do álcool e de outras drogas, enquanto Bernie gozava de sucesso sem perder sua compostura. Imaginar o Elton John que ali existia e o Elton John que poderia existir é um convite à reflexão até mesmo visual: nos primeiros diálogos vemos um Elton com roupas e adereços simples, passando por estágios, até o pavão-carnavalesco (literalmente) que conhecemos nas décadas de 70 e 80.

Ao chegar na América, Elton e Bernie conhecem John Reid (Richard Madden, que vocês podem reconhecer como Robb Stark de Game of Thrones), o inescrupuloso agente que vive um tórrido romance com Elton. A química e atuações de Egerton, Bell e Madden são dignas de nota, todos interagem absolutamente bem e com completa naturalidade. É neste ponto do longa que a parte musical atinge seu ápice, com sequências como a de Honky Cat, onde toda a cenografia faz parte do musical. Talvez seja exagero, mas esta é uma sequência digna de grandes musicais recentes como Chicago (2002) e Moulin Rouge (2001), um dos pontos altos do filme, com toda certeza. É também de se notar que, diferente do último grande filme sobre a vida de um astro britânico, Bohemian Rhapsody (2018), Taron Egerton canta cada uma de suas músicas de maneira extremamente competente, assim como seus colegas de cena. A atuação de Taron é de uma competência ainda maior quando percebemos como ele permeia pela vida de Elton John e suas mudanças de característica e humor com o passar dos anos, mantendo a coerência de trejeitos, sotaque e mudando levemente seu timbre para, não imitá-lo, mas manter coerente seu envelhecimento na voz. Taron Egerton é de um talento extraordinário em Rocketman.

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A parte final do longa é de um ritmo mais lento e mais biográfico de Elton John. E, mesmo não tendo a mesma animação de antes, possui emoção e drama como em nenhuma parte anterior, iniciando com uma das mais belas cenas de musicais que já vi, que é a interpretação de Rocketman embaixo d’água. Ali Elton John encara seu eu infantil, vestido de astronauta, em um verdadeiro balé aquático – mais um dos momentos que fazem os olhos umedecerem. Neste momento do filme a derrocada de Elton chega ao seu ápice. Para logo em seguida, acompanharmos sua retomada à superfície, dando passadas pesadas, adereçado de asas e chifres, entrando em uma sessão de terapia em grupo, retornando ao início da história.

Rocketman, por vezes, possui quebras de ritmo pouco convencionais, mesmo para um musical, para logo depois arrebatar o espectador em uma sequência eletrizante ou repleta de emoção e lágrimas. As partes mais biográficas e dialogadas acabam ficando sob a sombra da expectativa de qual será o próximo grande sucesso do astro. Mesmo com essas pequenas falhas de ritmo, o longa é como seu personagem principal: energético, sensível e repleto de cores.

Rocketman é um dos musicais mais emocionantes, sinceros e repletos de emoção crua e visceral que pude ver: um homem que não aceitou se mostrar como alcoólatra e viciado, mas, sim, como a grande estrela que é. O roteiro de Lee Hall, a direção de Dexter Fletcher e a atuação de Taron Egerton abrilhantam um dos grandes filmes de 2019.