Criador de inúmeros clássicos como E.T., Tubarão e Jurassic Park, Steven Spielberg consegue emplacar mais uma obra sua a ser lembrada com Jogador Nº 1

Não é novidade para quem acompanha o mundo do cinema de perto, de que Steven Spielberg estava vivendo uma fase morna e pouco memorável em suas produções. Bom, ele “estava”, e foi com o excelente The Post o seu retorno para os dias de glória, mas é com Jogador Nº 1 que o criador de E.T. O Extraterrestre, Tubarão, Jurassic Park e uma lista enorme de clássicos, ressurge em sua melhor forma com uma imersiva viagem pela fantasia e ficção, entregando um filme cheio de emoção, que diverte e prende o espectador até o fim, em uma overdose de easter eggs e referências aos anos 80, não apenas com os diversos personagens usados, mas também na trilha sonora com Prince, Bee Gees, Blondie e até um cover de “Pure Imagination”, faixa original de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, de 1971.

O filme se passa em 2045, em Columbus, Ohio. O mundo está à beira do caos, a pobreza e a falta de recursos é vista em todos os lados. Nessa realidade somos apresentados a Wade Watts (Tye Sheridan), um jovem pobre e órfão de 17 anos que mora com a sua tia em um trailer. Wade, assim como boa parte da população que apenas sobrevive e deixa os problemas da vida real de lado, passa o seu tempo dentro do OASIS, um universo virtual onde você pode ser quem quiser e fazer tudo que puder imaginar. Quando James Halliday (Mark Rylance), criador trilionário do game, morre, sua última ação é criar o maior desafio de todos, escondendo três chaves que quando reunidas, farão o vencedor se tornar dono da empresa, prêmio esse que o vilão Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn) procura conquistar a qualquer custo, visando apenas o lucro empresarial. Wade, dentro do OASIS, é um Gunter, um caçador de easter eggs, e obcecado pela vida de Halliday, o tornando o maior expert nas referências deixadas pelo criador, e assim ganhando uma vantagem para desvendar os enigmas.

O grande trunfo da adaptação é ter Spielberg na direção, trazendo todo seu carisma para as telas, junto com o roteiro de Ernest Cline, autor do livro em que o filme se baseia, e Zack Penn, mostrando honestidade e simplicidade ao entrega um filme que tem como objetivo a diversão. A história é contada sem querer atingir um público alvo específico, e ajuda na hora de se identificar com todas as situações do filme. Desde crianças que podem apenas se encantar com o visual, passando pelos mais jovens que se interessam por cultura pop e os adultos mais antigos, esses são os que pegarão grande parte das referências ligadas aos anos 80. A diversão proposta ao longo dos 140 minutos se sobrepõe ao desenvolvimento dos personagens, não existe muito aprofundamento nas motivações de cada um, mas de maneira nenhuma isso compromete a experiência, ainda conseguimos nos conectar com cada personagem e nos deixar levar pela nostalgia.

É impossível não ficar animado com cada referência e easter egg encontrado durante o filme, são muitos e com certeza será preciso assistir mais de duas vezes para achar todos. O mais interessante é que nenhuma das referências usadas são jogadas na tela sem algum propósito, todas tem função dentro do contexto em que são mostradas e ainda existiu o cuidado por parte de Spielberg de não focar especificamente em uma, mas dar destaque a todas. Nas sequências dentro do OASIS não tem como focar em um ponto da tela, os olhos batem em vários personagens de uma única vez e é ai que a overdose de referências acontece, é um mundo para ser apreciado diversas vezes. Não temos apenas ligações com os anos 80, Spielberg se atualiza e traz elementos de jogos e filmes atuais que os espectadores mais novos irão avistar de cara. É visualmente incrível e tocante, de fazer chorar até.

Embora o 3D seja usado por muitos filmes de maneira errada e desnecessária, em Jogador Nº 1 essa tecnologia é de extrema importância devida a imersão que o filme propõe, algo visto anteriormente apenas em Avatar. A sequência da corrida deixa isso muito evidente, em nenhum outro filme pude sentir a sensação de realmente estar dentro da tela, acompanhando cada segundo como se fosse real, a ponto de me mexer na cadeira para desviar dos elementos presentes na cena.

Existe o equilíbrio em mostrar o mundo real e o virtual, mas o foco principal é dentro do OASIS, o mundo virtual toma conta da trama, e ainda assim é uma história extremamente humana. Existem críticas no filme sobre o contexto que vivemos atualmente na sociedade, e a principal delas é a nossa dependência tecnológica, as constantes horas usando um smartphone, redes sociais e jogos de realidade virtual, por isso fica muito fácil imaginar que em alguns anos, o OASIS pode ser nossa realidade. Spielberg consegue encerrar o filme de forma simples e genial, e com a emoção que apenas ele poderia passar para as telas de cinema. É um clássico atual, representando a cultura pop em sua melhor forma. Jogador Nº 1 é o filme nerd que todos sonhamos em assistir, uma viagem nostálgica lindamente feita pelas mãos de Steven Spielberg.

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