Longa que adapta história em quadrinhos pega embalo no período eleitoral para mostrar um anti-herói brasileiro

Antes da sessão, o pedido foi para que os jornalistas encarassem O Doutrinador como uma obra de entretenimento. “É parecido com o Justiceiro”, dizia a assessora de imprensa. O pedido é compreensível. O filme, que adapta uma HQ nacional para as telonas, estreia pouco tempo após uma eleição com alto caráter polarizado, onde o país vive clima caótico em qualquer ambiente que se preste a discutir política.

A tentativa aqui é mesclar alguns ícones conhecidos da cultura nerd/pop, como o supracitado Justiceiro, além de Batman e outros personagens do gênero. Para tanto, também foi criada uma identidade estética, ou seja, um ícone que surge da revolta com a injustiça, representada aqui pelo burocrático e complicadíssimo sistema social brasileiro. Para ilustrar tudo isso, surge o visual bem elaborado do anti-herói que tem a máscara de gás como uniforme, algo criado nas HQs por Luciano Cunha.

foto de Aline Arruda
Foto de Aline Arruda

É difícil atender ao pedido de encarar O Doutrinador apenas como produto de entretenimento, na condição de um adulto já politizado. Especialmente, na política brasileira, temos um dos lados da polarização justificando a violência contra políticos corruptos (e a qualquer outro tipo de bandido), algo aceito por grande parte da sociedade. O filme não se propõe a mostrar consequências para quem descamba para o vigilantismo, algo que poderia ter sido facilmente abordado. Mas o que acontece é o contrário: mesmo ao assassinar um inocente, não ocorre nenhum tipo de reflexão. Isso remete bastante a falas do tipo “temos que matar uns trinta mil! Se morrer alguns inocentes no processo, tudo bem”.

Já com as pessoas mais jovens e/ou menos politizadas o longa de Gustavo Bonafé pode funcionar muito bem. Há cenas de ação interessantes, unindo um pouco de parkour com violência estética, que por sua vez é reforçada pelo bom trabalho de mixagem de som que compreende o território urbano que habita. Ainda assim, falta uma base melhor para o roteiro desenvolver boas ideias apresentadas como a relação entre Miguel e personagens importantes como Nina e Edu (Samuel de Assis).

Kiko Pissolato dá um rosto interessante ao protagonista, mas aparenta estar um pouco travado em algumas passagens. Quem mais se destaca no elenco é Tainá Medina, que vive Nina, trazendo um pouco de humor em algumas cenas, além de ser uma personagem importante para os desdobramentos da trama, servindo até como sidekick (parecido com Micro nas histórias do Justiceiro) às vezes. Como curiosidade, também temos a presença Marília Gabriela no papel de uma ministra corrupta.

O filme estreia dia 1 de novembro nos cinemas.