Por Luke Muniz

Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Magnólia, Boogie Nights), “Trama Fantasma” conta a história de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), um renomado costureiro inglês, e que designa todas as suas peças para a alta sociedade britânica dos anos 50. E durante seu ofício, encontra em seu caminho a dócil e opiniosa Alma Elson (Vicky Krieps), fazendo assim, toda a sua vida e sua rotina mudarem de uma hora para outra.

O longa já mostra toda a sua elegância e sutileza logo no seu início. Passeamos pelo escritório e casa de Reynolds com uma câmera que desliza com calma e com clareza, preenchendo todos os espaços e lacunas, com planos que situam o espectador e alocando tudo no seu devido lugar. Com poucos segundos, e com a demonstração belíssima de um dos cenários mais importantes da história, é possível já ter noção das facetas e do estilo dos personagens que serão apresentados a seguir.

Um dos elementos que se destaca de longe em “Trama Fantasma” é seu design de produção. O filme é esplêndido, do ponto de vista estético e sempre fazendo jus ao que nele circunda, a alta sociedade inglesa. É pomposo quando deve, e mesmo na sua discrição, também chama atenção para os detalhes eloquentes.

A fotografia sempre opta por planos médios e mais fechados, os closes. É uma história intimista, que tende a explorar a psiquê dos seus personagens, desde suas singularidades, até o senso comum da época. Não saturando nenhuma das duas, o ritmo é acertado, e cria-se uma dinâmica boa entre os planos. O caráter íntimo também se reflete na escolha dos cenários, a maioria deles, em locais internos, sem muita profundida de campo, mas nunca escolhendo deixar desfoque de fundo, tudo é valorizado.

A escolha de cores vem sempre em complemento, e obviamente, refletindo a atmosfera de suas personas. Woodcock sempre vai no preto, uma gravata com colete, muito formal, demonstrando sua finesse e seriedade, principalmente com o seu ofício. Alma já entra com mais variância, ela já possui uma personalidade mais maleável, então, naturalmente uma mudança de cores seria o ideal. Perceba, Reynolds é um homem que tem rotina e horários “britânicos“-com o perdão do trocadilho-, é uma distinção quase que completa de sua parceira e musa inspiradora. Importante ressaltar o uso do vermelho para demonstrar paixão, o calor em um ambiente frio e seco. Em meio a tantas cores pastéis e apáticas, o vermelho recebe destaque imediato e bem empregado.

O argumento do roteiro do filme é bem simplório: Um estilista inglês que conhece uma nova inspiração. Mas o que desenrola nesses fatos é que mostram a riqueza de detalhes e todos os “porquês” que uma premissa básica pode gerar. De antemão, não possui furos, é redondo e coeso dentro de sua proposta, o estudo de época e comportamento é muito bem realizado, e a atmosfera é bem representada, é imersivo e contagiante. Mas o que mais chama a atenção em “Trama Fantasma“, são de fato, os seus personagens e suas peculiaridades. Todos eles bem distintos e bem desenvolvidos.

Destaca-se no elenco de apoio, Lesley Manville (Cyril Woodcock) ela possui uma personalidade forte, chegando a ter momentos cômicos, de certa forma, e um olhar que exprime com facilidade as suas decisões e como ela pode ser vil. Daniel Day-Lewis dispensa comentários, ele entrega um homem cheio de nuances, com um olhar que esconde todo um mar de mistérios. Ele é frio, calculista e não teme exprimir essas características. Algo que vale salientar, é sua natureza de presságio, aparenta que a todo momento ele vai explodir emocionalmente com algo, ou tomar uma atitude grosseira.

Alma também possui uma personalidade cativante, sendo dócil, gentil, e no outro lado da moeda, possuindo características mais fortes e não deixando que o ambiente ao seu redor dite tudo o que ela deve fazer, ela se impõe e responde a altura. A relação entre ela e Reynolds é rapidamente estabelecida, mas não deixa a desejar, o filme, em seus exageros e hipérboles, faz crer e deixar confortável como se encaixa essa interação entre o casal. É um relacionamento abusivo e é justamente esse um dos pontos que o longa fala, sobre entender e compreender o outro, sobre ceder. Entretanto, em meio a essa mensagem bonita e importante, o longa e a direção de Anderson, faz parecer como se exaltasse uma relação deste tipo, o que nem de longe é saudável, chega até ser de mau gosto, mas, na história, os dois se aceitam e se amam apesar e cientes destas condições, e quando há consentimento, ninguém pode interferir.

A trilha sonora é linda, é feita com pianos clássicos e com cordas. Ela passeia e costura-perdão pelo segundo trocadilho-toda a trama e também ajuda a ditar o clima de certas cenas. Desde as mais banais, até as que geram clímax chave para a narrativa. Mesmo com toda a elegância carregada em seus elementos, “Trama Fantasma” carrega consigo um problema em sua linguagem, ela é muito prolixa, em certos momentos, existem muitas cenas que não dizem nada e que não fariam diferença, é apenas estar por estar, a narrativa sofre e beira ao enfadonho em ocasiões, era um filme para ser mais curto e mais objetivo. Isso agrava quando temos uma estática de clímax, eles apesarem de serem chaves, não são carregados, com exceção de um ou dois, prejudicando assim o ritmo da história.

Trama Fantasma” é elegante, visualmente perfeito, com personagens interessantíssimos, possuindo uma trilha igualmente bonita, porém sofre com sua linguagem prolixa e em dado momento, enfadonha.