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Animes e Mangás

Vezes em que a adaptação foi “melhor” que o original

Molho Shoujo

18 fev, 2021

Por Beatriz Carvalho

Apesar de aqui, no Brasil, otaku designar genericamente qualquer um que consuma bastante materiais, sejam animes, mangás ou lightnovels, no Japão, o termo tem relação com o “vício” de alguém em um tópico específico. Assim, é muito comum ouvir falar em otakus de games, otakus de mangá, e pasme, até otakus de trem.

Por conta dessa separação entre gostos, é muito comum em fóruns vermos pessoas discutindo sobre como a mídia do mangá é melhor que a do anime e vice-versa. Muitas vezes, a argumentação acaba caindo naquele velho argumento que os fãs de livros utilizam para reclamar dos filmes: AH, MAS A ADAPTAÇÃO NÃO FOI FIEL AO ORIGINAL.

Seja por acharem que a adaptação deixou “muita coisa de fora” ou por achar que é mais fácil transmitir determinado sentimento pela mídia adaptada do que a original, portanto, esta seria uma arte preguiçosa, muitas são as razões para o público em geral não gostar delas, principalmente quando se tem conhecimento do material de origem. Contudo, nem sempre o original é melhor. E, não é o caso desse texto, mas o fato é que nenhum argumento que se dê é bom o suficiente para ficar de briguinha com a adaptação.

Então resolvi trazer três obras em que, de algum modo, a adaptação foi melhor que a original.

Usagi drop

Usagi drop é um mangá escrito por Yumi Unita e teve seu primeiro lançamento em 2005, e, em 2011, a adaptação para anime foi ao ar. Sabe quando a gente reclama que a nova mídia não foi até o fim da história? Em Usagi drop, todo mundo deveria agradecer pela produção do anime ter tido este bom senso.

Daikichi é um cara na casa dos 30 anos que vive sozinho e de forma despreocupada até que seu avô morre. No funeral, ele conhece a filha de 6 anos, Rin, que seu avô teve em segredo e seria mandada para um orfanato pois nenhum outro membro da família a queria. Indignado com a situação, Daikichi resolve mudar sua rotina por completo, adotando a criança. Até aí, e é o arco que o anime trata, a história se vê ligada ao dia de Daikichi e Rin tentando se adaptar um ao outro e aprendendo a viver como uma família.

O primeiro arco da história é sensível e mostra de forma bem acolhedora como um adulto e uma criança constroem uma relação de confiança após o processo de adoção... Mas, infelizmente, o mangá resolveu continuar e fazer com que a história virasse um romance entre Daikichi e Rin depois que a garota se torna adolescente. Além desse incesto, a história tem muitos outros momentos questionáveis, como a atitude da mãe de Rin em relação à filha e o modo como o mangá trata as relações amorosas entre mulheres e homens mais velhos como um tipo de fetiche por uma “figura protetora”.

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Chihayafuru

Chihayafuru , escrito por Yuki Suetsugu, começou a ser publicado em 2007 e ainda está em lançamento pela Be Love. Em 2011, ganhou sua adaptação para anime e conta, até então, com três temporadas adaptadas.

Chihaya é uma garota que passou boa parte de sua infância acreditando que seu maior sonho era ver sua irmã mais velha se tornar uma modelo de sucesso. Ela é um garota desastrada e não liga muito para os estudos, mas, ao se tornar amiga de Arata, um garoto recém-transferido para Tokyo, ela descobre que jogar Karuta (um jogo de cartas que utiliza os poemas da coletânea do Hyakunin Isshu) é divertido e passa a sonhar em ser a melhor jogadora do Japão. O mangá é impecável em mostrar o crescimento de Chihaya como pessoa e como atleta (Karuta é considerado um esporte) e tem relações muito bem construída entre as personagens principais e secundárias.

Contudo, o anime pôde representar algo que, sobretudo os leitores não japoneses, dificilmente conseguiriam imaginar em sua totalidade: as partidas de Karuta. Sendo um jogo que parte da leitura e memorização de poesias no estilo Haikai, uma história sobre Karuta em uma mídia silenciosa, sobretudo para quem não sabe o que é haikai ou não fala japonês, pode se tornar confusa e um pouco maçante. Além do anime tornar possível a escuta da declamação dos poemas, o espectador pode entender melhor como o talento de Chihaya para distinguir sons funciona, além de tornar mais acessíveis as discussões sobre como ler bem ou mal a poesia ajuda e atrapalha os jogadores. Outros dois bônus do anime estão no cuidado em representar o sotaque dos personagens da região de Fukui (local onde nasceu Arata) e como o triângulo amoroso que no mangá, em alguns momentos, caia na disputa entre Arata e Taichi pela “posse da atenção/companhia” de Chihaya, foi traduzido como uma relação de admiração e disputa entre esportistas. Inclusive, contando com cenas em que os personagens expressam que Chihaya não pertence a ninguém, o que faz muito mais sentido, visto que, desde o início a história, tenta mostrar que cada pessoa tem e deve ter suas próprias ambições e objetivos.

Chihayafuru-anime adaptação mangá

Kakegurui

Kakegurui é um shounen escrito por Homura Kawamoto que começou a ser publicado em 2014, foi adaptado para anime em 2017 e, em 2018, estreou como dorama.

Na escola Hyakkaou Private Academy, os estudantes possuem uma organização peculiar: aqueles que somam fortunas ganhando apostas nos mais variados tipos de jogos de azar são tratados como reis e o conselho estudantil é formado por estudantes que são especialistas e sempre vencem algum jogo. Se você perde e não consegue pagar sua dívida de jogo, é tratado como um cachorro, sendo obrigado, inclusive a usar uma coleirinha.

Ryouta, um estudante que já aceitou seu destino de viver como um cão, vê sua sorte mudar ao se tornar amigo da estudante nova, Jabami Yumeko. A história é bem surtada e tem um misto de suspense e violências em torno das apostas que podem ser não apenas em dinheiro, mas em coisas bizarras como unhas ou outras partes do corpo. Das três indicações, essa é a mais discutível, pois o dorama ser melhor que o anime e o mangá depende muito de quão bem você aceita a erotização das mídias. Tanto o anime quanto o mangá representam as emoções durante as apostas e a própria personalidade das personagens de forma extremamente sexualizada, quase pornográfica, deixando tanto a tensão quanto o alívio para o ecchi. No dorama, entretanto, a sexualização é suavizada e o alívio cômico vem do exagero nas reações nos personagens que, se na imagem 2D é bizarro e erotizado, no dorama se torna construtível pelo inesperado e desproporcional. Quanto a construção da história em si, as três mídias são equivalentes, pois cada uma se justifica dentro de sua própria proposta.

Se o espectador não gosta do tipo de atuação de dramas japoneses, essa opinião de que o dorama é melhor que as outras mídias é falsa, e, na verdade, o dorama seria pior do que as outras. O fato é que, nessa história, cada mídia tem uma proposta diferente e escolher qual é a melhor depende mais do que o espectador acha mais aceitável. Na verdade, em todas as sugestões, esse é o ponto central: tudo depende do gosto de quem assiste/lê, pois toda adaptação é uma tradução e toda tradução é uma interpretação.

*Esse post é fruto de uma parceria entre o Molho Shoujo Podcast e o CosmoNerd. Confira os episódios do programa clicando aqui.
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