Apesar de todas as manobras da Marvel, é impossível negar a importância dos X-Men. Entre questões éticas e sociais, os personagens gozaram do privilégio de habitarem o Olimpo dos super-heróis. Porém, nunca foram bem vistos por boa parte da população que permeava suas aventuras. Então, se até mesmo os mutantes com privilégios enfrentavam dificuldades, o que dizer daquelas pessoas aleatórias que nunca tiveram a sorte de viver em uma mansão? Perseguidas pelas autoridades e por seus outrora companheiros, apenas por serem diferentes. Como ter esperança quando seus maiores símbolos não existem mais? É nesse contexto que The Gifted se encaixa.

A nova série da parceria entre Fox e Marvel pode não ter todo o primor técnico de Legion, mas sabe muito bem como explorar os clichês do sub-gênero e beber da essência dos quadrinhos. Sem enrolações, The Gifted nos apresenta seu universo particular. Nos primeiros minutos, acompanhamos a fuga de Blink (Jamie Chung) até o momento em que é ajudada por Eclipse (Sean Teale), Polaris (Emma Dumont) e Pássaro Trovejante (Blair Redford). Uma resistência que busca salvar mutantes das mãos da polícia e principalmente da Sentinel Services, uma força governamental especializada em eliminar os “mutunas”.

Do outro lado da moeda, temos a família Strucker. Reed (Stephen Moyer) ganha a vida trabalhando no departamento anti-mutantes, que possui métodos bem mais convencionais que a SS. Seus filhos seguem o padrão que já conhecemos de outras obras. Lauren (Natalie Alyn Lind) é popular na escola e Andy (Percy Hynes White) sofre com os valentões. O cenário muda quando, num acesso de raiva, Andy desperta seus poderes mutantes. E de quebra Lauren precisa revelar que também possui habilidades, mas que as escondeu durante anos. Conhecendo a dinâmica da atual sociedade, Reed sabe que seus filhos precisam fugir para o mais longe possível. A união desses dois núcleos tão distintos é o gatilho para as ótimas impressões deixadas pelo piloto de The Gifted.

Matt Nix, showrunner da série, acerta ao transformá-la em um produto com personalidade própria. Embora existam algumas referências, The Gifted não possui nenhuma ligação com o universo cinematográfico dos mutantes. Ok, para ser justo até que lembra um pouco o clima de Logan. No sentido da ausência de esperança, já que nem os X-Men e nem a Irmandade existem mais. Isso garante uma certa liberdade para brincar com personagens e enriquecer os caminhos da trama. E diferente de Inumanos, o episódio possui uma dinâmica perfeita na hora de apresentar os protagonistas, seus conflitos e personalidades. Com boas cenas de ação e um CGI bastante competente, fica claro todo o esmero depositado pelos envolvidos.

A direção de Bryan Singer é um diferencial. Responsável por levar os X-Men para as telonas, aqui ele usa e abusa de sua experiência. E o mais importante, deixa de lado alguns vícios que saturaram sua imagem nos últimos filmes, como X-Men: Apocalipse deixou bastante claro. Por muitas vezes, o episódio lembra a estrutura de X-Men 2, o melhor longa da franquia até hoje. Claro que existem alguns deslizes, especialmente nas atuações, mas nada que estrague o panorama geral.

Engana-se quem imagina que The Gifted é uma série de super-heróis. É muito mais uma história sobre pessoas que precisam lutar para sobreviver pois suas diferenças não são compreendias pela humanidade. Algo que estabelece um diálogo bastante profundo sobre tudo que acontece em nossa sociedade. É o tipo de obra que merece sua atenção, assim como as histórias dos X-Men. Vida longa para essa parceria televisiva entre Fox e Marvel.

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