Vivemos em um mundo dominado pela temática dos super-heróis. Saíram dos quadrinhos e são figuras carimbadas nas telas dos cinemas pelo mundo. Disney, Warner, Fox, Sony e outros estúdios já sentiram o poder lucrativo que esses personagens possuem. No cenário das séries, eles também tem um lugar ao sol. Arrow, Flash, Demolidor e tantas outras são sucessos dentro da cultura pop. Mas mesmo com toda essa expansão, ainda existe uma barreira difícil de ser superada. Sair do estigma de “mais uma série de super-herói” é o grande desafio das novas produções. Pode parecer loucura falar isso, principalmente diante do massivo número de espectadores adquiridos todos os dias. Mas também é importante ir além do uniforme semelhante ao da HQ.

Trazer discussões atuais, dilemas que os personagens carregam de suas histórias, se fazer relevante não apenas em seu segmento, mas no mundo das séries como um todo. E sabemos que com tantas produções – dos mais variados tipos – surgindo todos os dias, é difícil se destacar na multidão. Ter inspiração nas grandes séries da história da TV já é um começo. Não que isso já te torne automaticamente grande, mas é sempre bom se espelhar nos melhores. E é isso que Cheo Hodari Coker, produtor de Luke Cage, está fazendo.

Durante uma entrevista ao Entertainment Weekly ele comentou sobre o clima pensado para a série. “É muito sofisticado, tem essa vibe hip-hop dos anos 90, mas é realmente algo vanguardista. Nós temos Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad fazendo a trilha sonora. Temos drama e eu sei que é pesado dizer isso, mas será a The Wire da Marvel”. Isso mesmo, você não leu errado, ele disse The Wire. A série da HBO certamente está na lista das grandes produções da história da TV. Loucura? Presunção? Nada disso, apenas uma dose de coragem.

Celebrity Sightings In New York City - September 22, 2015

A declaração não foi feita para dizer que eles vão alcançar o mesmo nível de The Wire, mas que vão buscar uma identidade parecida com a da série. O desafio de Luke Cage começa quando ele não é um personagem tão conhecido do grande público, mesmo possuindo algumas ótimas histórias. Então é necessário construir algo que instigue o público a consumir esse produto. Digamos que é preciso criar uma alma. Claro que os selos da Marvel e da Netflix ajudam, mas um fã de séries não acompanha algo que não tenha nada a dizer. Como está no início do texto, é preciso algo além de “mais um super-herói”.

Jessica Jones é um ótimo exemplo. A série trouxe uma personagem longe do pedestal das grande super-heroínas, com medos, fraquezas e traumas. Além de tratar de temas tão vivos em nossa sociedade, especialmente os relacionados as mulheres. Luke Cage também pode ir por esse caminho. Um herói negro em um bairro barra pesada, tratando de temas como racismo, tráfico de drogas, policiais e políticos corruptos. Tudo com uma dose de reflexão, tentando mostrar uma realidade presente em vários países pelo mundo. Com certeza é alguém com quem o público – em sua enorme variedade – vai se identificar.

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Séries urbanas precisam ter em suas cidades um personagem tão importante quanto os de carne e osso. Demolidor é assim com Hell’s Kitchen, principalmente na primeira temporada. Baltimore é o coração de The Wire, na verdade está mais para a alma. E em Luke Cage o Harlem pode assumir esse papel. Pelo menos foi o que Mike Colter deu a entender na mesma entrevista ao EW. “Eu não sei se muitas pessoas já estiveram no Harlem, quem realmente já colocou os pés em Nova York e foi até a 125th Street e viu de perto o Apollo Theater e o Cotton Club. Nós iremos trazer este mundo para a telinha”.

Além disso a trilha sonora também tem uma importante função. Cheo Hodari comentou que Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad (integrante do Tribe Called Quest) são os responsáveis pela trilha de Luke Cage. Os caras estiveram envolvidos no recente trabalho de Kendrick Lamar, que é uma das vozes influentes do atual cenário do Rap. E sabemos que o Rap e o Hip Hop são importantes armas de manifestação cultural.

Claro que dizer tudo isso não serve de nada. Todos os envolvidos na série do Luke Cage vão precisar dar o melhor para transformar essa vontade em realidade. Mesmo que não consigam chegar ao nível de The Wire, vai ser bom ter uma série que vai além das aparências.